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A ancestralidade como combustível para empreender na periferia

Em roda de conversa on-line empreendedores debatem o contexto atual e destacam como a periferia tem potencial para se reinventar olhando para o próprio passado

Data de Publicação: 2020-11-03T03:00:00.000Z | Tempo de leitura: 7 minutos

Pense Grande

Imagem de mulher sorrindo representa live que tratou de temas como empreendedorismo na periferia e ancestralidade. Ela é negra, tem os cabelos crespos e cacheados e está usando uma blusa amarela


A pandemia afetou setores sociais, culturais, econômicos e, como não poderia ser diferente, trouxe um cenário novo também para empreendedores sociais. Com o tema Empreendedorismo Social e o Olhar da Periferia, o 5º encontro da série Conversa que Aproximam, organizado pela Fundação Telefônica Vivo, abordou como a construção do novo normal está afetando quem atua para mudar realidades, debatendo autoconhecimento, atuação em rede e ancestralidade.

A mediação do encontro ficou com Edgard Gouveia Jr, arquiteto, urbanista e empreendedor social que trouxe provocações aos três convidados: Thiago Vinicius, articulador da Agência Popular Solano Trindade; Luis Coelho, sócio-fundador do Empreende Aí; e Bia Santos, CEO da Barkus Educacional.

A conversa começou com cada um deles pontuando sua visão sobre empreendedorismo na periferia. Para Luis, é uma resposta a modelos que começam a ser contestados, tanto de formato de trabalho como da organização da cidade – como a questão da mobilidade das pessoas que levam horas para chegar ao trabalho, por exemplo - ressaltando que pandemia evidenciou processos que já vinham ocorrendo. 


“Pensando nesse recorte da periferia, não temos outra opção a não ser nos adaptar. A maior parte dos negócios na quebrada conseguiu, porque o empreendedorismo nas periferias é uma resposta e a gente consegue fazer transições rapidamente. Além disso, a sociedade civil e organizações ajudam a diminuir o impacto, que ainda está acontecendo e já foi muito forte”, aponta o sócio da Empreende Aí.


Bia Santos foi na mesma direção, pontuando que empreender com impacto social é atuar em rede, e que grandes empresas e o poder público poderiam potencializar a atuação de negócios como a Barkus e a Empreende Aí no apoio a pequenos empreendedores por meio de capacitações para lidar com questões financeiras.

“É preciso trazer mais dinheiro, é importante o lucro, inclusive, para gerar mais renda e pagar melhor as pessoas envolvidas. Esse apoio ao empreendedor para que ele continue crescendo e com autoestima. Que ele gere mais dinheiro dentro da comunidade, mais emprego e também compartilhe qualidade de vida com outras pessoas. Acredito nisso”, afirmou a jovem.

Já Thiago, cujo trabalho envolve apoiar produtos e serviços para bairros periféricos, vê o empreendedorismo social como uma oportunidade de viver dos próprios dons. “Temos uma importância grande porque a gente participa da mudança da rota de vida das pessoas. Quantas empregadas e motoristas de ônibus que no dia do Festival Percurso (organizado pela Agência Solano Trindade) olham para outro caminho e falam: ‘É isso que eu quero!’. A nossa visão de lucro é ter mais cultura, mais educação, é ter mais creche. Empreendedorismo significa tudo isso para mim”.

 

Olhar o passado para compreender melhor o futuro

Em um campo em que se guiar por tendências e por planejamentos são fundamentais, os empreendedores sociais aconselharam a olhar para o passado, a fim de encontrar respostas para o futuro. Bia Santos trouxe o simbolismo do sankofa, um ideograma de um pássaro com a cabeça virada pra trás e o corpo para frente.

“Isso é africano, é você respeitar seus ancestrais, é sobre olhar o que já aconteceu e planejar melhor o futuro. Essa compreensão está ligada ao autoconhecimento”, afirmou a jovem de 24 anos, que recordou a própria trajetória.

Bia destacou que a Barkus Educacional, que hoje oferece educação financeira com foco em pessoas de baixa renda e mantém vagas para bolsistas, surgiu de um projeto escolar e de uma vontade quase intuitiva de querer compartilhar conhecimento com parentes e amigos que já começavam a vida adulta enfrentando problemas como dívida com cartão de crédito e falta de acesso a investimentos. 


 “A Barkus partiu desse incômodo. Comecei fazendo palestra, nem sabia precificar. E aí o Pense Grande foi um divisor de águas! Hoje tem a versão digital, que é gratuita e pode ser acessada da sua casa! Descobri nesse processo que podia viver bem, ter o meu salário, qualidade de vida, mas, principalmente, fazer algo pela sociedade. É mais gostoso quando a gente tem lucro transformando a sociedade”, afirmou Bia.


Luís Coelho, da Empreende Aí, enalteceu o fato da vivência em um bairro de periferia trazer uma preparação que não se consegue em uma faculdade e de como isso pode ser poderoso na hora de compartilhar conhecimento.

“Primeiro a linguagem, a gente sabe quem é da periferia pelo jeito como se coloca. A linguagem é poder, é conexão! Quando falo de empreendedorismo e de novas tecnologias de forma simples sem perder profundidade, eu estou compartilhando poder. Segundo, que aprendi a negociar com discussão na rua”, conta.


Já Thiago Vinicius, da Agência Solano Trindade, defendeu que antes de começar a colocar a mão na massa é interessante conhecer a história dos avós e tios. Trajetórias que são marcadas por superação e resiliência e darão pistas de como melhorar a comunidade. Segundo o empreendedor, é um estudo sociológico e antropológico para quebrar paradigmas e conseguir atingir objetivos com mais clareza.


“Trabalho com orgânicos na periferia e muitos olham para isso sob uma ótica de inovação, mas os bairros carregam o passado em seus nomes: Campo Limpo, Jardim das Flores. As pessoas aqui sabem fazer comida e remédio do coração da banana, são coisas maravilhosas que nossos mais velhos têm. Hoje, o mundo contemporâneo, rápido e globalizado não permite esse olhar para nossa própria história. Antes de saber aonde quer chegar, se pergunte de onde você veio”, observou.


Um futuro com valorização da periferia

Ao falarem sobre as expectativas para o futuro, Luis apontou para um cenário que poderá acentuar a tendência de mais pessoas seguirem o caminho do empreendedorismo por necessidade, por terem perdido seus empregos e precisarem equilibrar suas finanças.

“A renda desses novos empreendedores tende a diminuir, pois serão mais ‘tias do bolo’, mais pessoas que vendem marmitex, serão mais desses negócios simples. E vão disputar por preço, porque não serão negócios tão preparados. Aí entram o trabalho de organizações que capacitam, como a Solano Trindade, como a Empreende Aí e a Barkus, porque eles vão precisar saber o que estão fazendo”, projetou.

E se a caminhada por vezes parece dura, Thiago Vinicius reivindica que o Estado e empresas com poder de investimento olhem para bairros mais vulneráveis como potência e não demanda.

“Quando tirei minha comunidade das páginas policiais para as páginas econômicas e culturais marcou muito minha vida. Quando a Agência aparece no (jornal) Valor Econômico, ou se destacou na Bienal de São Paulo mexeu demais, porque é uma vitória coletiva, ancestral. É você pegar a história da minha mãe, que durante anos foi empregada doméstica, e hoje bate no peito para falar que tem o restaurante dela!”.

Por fim, Bia Santos encerrou o bate-papo reforçando que as pessoas têm múltiplas histórias e que a população negra não pode ser sempre colocada como quem vai servir, limpar, ou que só terá sucesso sendo esportista, cantor ou jogador de futebol. Ela torce para que cada vez mais pessoas empreendam pensando no impacto que causam, com planejamento e não apenas pela ótica da urgência.

“É muito bom começar de uma forma mais estruturada e com olhar estratégico. Se não conseguirmos olhar com sustentabilidade e transformação social, a gente não dura 30 anos. O empreendedorismo social é parte da solução dos problemas que estamos vivendo”, conclui.

Assista na íntegra o 5º encontro do Conversas que Aproximam, Empreendedorismo Social e o Olhar da Periferia:

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