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Na imagem, três jovens negros conversam sentados em volta de uma mesa. O rapaz do centro está com um notebook virado para ele.

Em bate-papo, a jovem mestranda e pesquisadora, Taís Oliveira, fala sobre oportunidades e afroempreendedorismo no Brasil.

Quando via de perto o esforço de sua mãe, envolvida em diferentes atividades para complementar a renda da família, Taís Oliveira, nascida no bairro Parque Santos Dumont, periferia de Guarulhos (SP), nem imaginava, mas estava dando seus primeiros passos rumo ao que mais tarde seria seu objeto de trabalho e até o tema de sua dissertação de Mestrado: o afroempreendedorismo.

Participando de cursos e atividades em um projeto social na cidade em que vivia, Guarulhos, Taís decidiu fazer a faculdade de Comunicação Social com ênfase em Relações Públicas. O curso lhe abriu portas para se aprofundar em temas como o empreendedorismo negro.“Não só nos dias de hoje, mas em toda a história da população negra do Brasil, o maior desafio é lidar com o racismo”, garante Taís.

Aos 28 anos, ela é pesquisadora membra do NEAB (Núcleo de Estudos Africanos e Afro-brasileiros) na Universidade Federal do ABC, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais e cofundadora do blog Versátil RP.  Recentemente, Taís esteve em Portugal para participar do evento Smart Data Sprint, que reúne investigadores e estudantes de todo o mundo interessados em trabalhar com dados e métodos digitais.

O que dizem as pesquisas

O termo afroempreendedorismo é uma modalidade de negócios voltada à valorização do empreendedor negro como investidor em potencial e grande representante do mercado de negócios. De acordo com a última pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor (GEM), realizada pelo Sebrae em 2017, as pessoas negras são a maioria dos empreendedores do Brasil e movimentam mais de R$ 1 trilhão de reais por ano na economia, segundo o Instituto Locomotiva.

Driblando o desemprego, combatendo o racismo e a falta de oportunidades, o empreendedorismo se torna uma estratégia para escapar da crise e incentivar novos empresários a crescerem nesse mercado.

Na visão da especialista

Taís Oliveira teve um de seus artigos, Redes Sociais na Internet, Narrativas e a Economia Étnica: Breve estudo sobre a Feira Cultural Preta, publicado no livro Estudando Cultura e Comunicação com Mídias Sociais, que reúne textos de professores e pesquisadores que debatem métodos, identidades, política e mercado da Comunicação. A publicação está disponível para download gratuitamente neste link.

Batemos um papo com a Taís para conhecer um pouco mais de sua trajetória e saber sua visão sobre afroempreendedorismo, o uso das redes sociais como forma de comunicação, a participação das mulheres negras nesse contexto e outros temas. Confira!

 

Como os estudos sobre afroempreendedorismo surgiram na sua vida? 

 

 A jovem Taís Oliveira posa para foto

A pesquisadora Taís Oliveira

Taís Oliveira – Desde pequena acompanhei minha mãe, que é uma mulher negra, nordestina, empregada doméstica, em atividades paralelas que ela realizava para ganhar um dinheiro extra. Naquela época não entendíamos isso como empreendedorismo. Fui mantendo essa relação muito próxima com o tema. Trabalhei em agências de comunicação e sempre ofereci aulas para movimentos sociais e pessoas que não têm muito acesso. Nesse processo, conheci a Feminaria, uma casa para mulheres empreendedoras, onde ofereci muitos cursos de planejamento e comunicação. Me aproximei de movimentos como o Afro Business, a Feira Preta e a Black Rocks, onde sou mentora e ofereci cursos. Com isso, descobri que o afroempreendedorismo tem aspectos sociais que vão além das questões técnicas. Tem muito sobre racismo, identidade, estrutura social, questionar padrões de práticas. E consegui encaixar isso em uma teoria da sociologia do trabalho que é interessante para pensar na questão do grupo étnico.

 

O que te ajudou a iniciar sua trajetória?

Taís Oliveira – Consegui galgar alguns espaços porque sempre investi em blogs, mantive minhas redes sociais sempre ativas e tudo que aprendi e aprendo, tento compartilhar de alguma forma. Mantenho minhas apresentações abertas para acesso gratuito. O grande segredo é compartilhar conteúdo de qualidade e empreender em aspectos que não necessariamente estejam ligados a ganhar dinheiro. Essa troca de informações e conhecer pessoas também são elementos importantes na carreira.

Qual a essência do termo afroempreendedorismo?

Taís Oliveira – O conceito de empreendedorismo está próximo de questões administrativas, de finanças, gerenciamento em torno de negócios, etc. Isso tudo também existe quando estamos falando de afroempreendedorismo, mas as questões sociais relacionadas a ser negro no Brasil e em outros países também está em voga quando relacionamos ao tema. Por exemplo, em eventos, sempre está prevista uma discussão sobre racismo, educação, mercado de trabalho de maneira geral. Os grupos e movimentos sobre afroempreendedorismo estão conectados a movimentos sociais debatendo política, se posicionando de uma forma mais clara e objetiva. Então, o afro vai além de questões técnicas e financeiras. Não é só promover o lucro, mas também uma reflexão importante sobre pautas sociais.

Quais os maiores desafios para os empreendedores negros?

Taís Oliveira – Não só nos dias de hoje, mas em toda a história da população negra do Brasil, o maior desafio é lidar com o racismo. E é um racismo estrutural. Parte desses empreendedores estão nessa função porque não tem um emprego formal ou porque sofreram algum tipo de preconceito em empresas. Um dos desafios, já a respeito da prática em si, é a questão do financiamento. O professor Marcelo Paixão tem uma pesquisa que fala do acesso ao microcrédito. Ele mostra como a pessoa negra que busca crédito é barrada já na porta do banco. A questão de encontrar financiamento é um problema. E sem esse dinheiro inicial, é difícil empreender, em muitos casos. A questão do racismo é bem presente nesse tópico.

O afroempreendedorismo pode ser classificado como um movimento de consumo consciente?

Taís Oliveira – Sim. Inclusive, há movimentos como “Se eu não me vejo, não me compro” ou o “Só compro do pequeno”. E isso é muito aplicado dentro do afroempreendedorismo: consumir produtos e serviços de empreendedores negros. E isso tudo tem ganhado uma proporção grande. Eles mesmo fazem um esquema de comprar entre si e garantem que não vai haver mão de obra escrava, que vão ajudar uma família negra a prosperar, por exemplo.

Como a internet e as redes sociais podem contribuir com o afroempreendedorismo?

Taís Oliveira – As redes sociais possibilitaram o encontro dessas comunidades de afroempreendedores sem a necessidade de uma proximidade geográfica. Quem está em São Paulo pode trocar ideias e consumir produtos do Vale do Dendê, de Salvador, por exemplo. E até mesmo de movimentos fora do país. Isso, na verdade, segue uma tendência. As comunidades negras sempre se encontraram, especialmente as comunidades diaspóricas, um movimento de se aglomerar desde os quilombos. E chamamos esse movimento de quilombo digital, onde nos encontramos de alguma forma para promover o bem-estar da comunidade.

Na comparação salarial, os negros continuam ganhando menos e têm escolaridade inferior aos brancos. Como você analisa esse cenário?

Taís Oliveira – Isso é resultado de um período escravocrata no Brasil e de um racismo estruturado com políticas. Os negros não tiveram acesso à educação, a ferramentas de cultura, saúde. O resultado dessa disparidade é resultado ainda de um regime escravocrata. Temos menos de 200 anos de um país livre de fato. E a questão da violência é muito presente. As pessoas negras morrem mais e estudam menos. Hoje, mesmo que esse pequeno aumento do movimento afroempreendedor tenha seu pé calcado nas políticas de ação afirmativa, tanto de educação quanto de setor público, por exemplo, o poder acaba ficando ainda com quem define os salários.

E ainda segundo pesquisas, a maioria das pessoas negras que empreendem, são mulheres. A que você credita esse cenário? 

Taís Oliveira – Isso é uma resultante ao extermínio da população negra. A fonte acaba sendo a mesma que envolve o racismo. A diferença é que o homem negro morre mais. E as mulheres precisam então chefiar as suas famílias. Em consequência disso, arranjam alternativas para ganhar dinheiro extra. Também existe uma conexão de que as mulheres negras estudam mais que os homens negros.

Você acredita que a escola pode contribuir de alguma com o estimulo ao afroempreendedorismo?

Taís Oliveira – A escola pode mobilizar os alunos de forma geral sobre o tema empreendedorismo, empreendedorismo social, inovação. O afroempreendedorismo está relacionado a Lei 10.639, que estimula o ensino de estudo da África e de questões relacionadas a raça nas escolas. A escola pode ser uma importante ferramenta para isso. Mas o cenário é bem pessimista nesse sentido. Nem o básico da lei é aplicado hoje. Para chegar no patamar de ensino seria uma questão a mais de discussão hoje em dia.

Você tem alguma dica para as pessoas negras que querem empreender e enfrentam dificuldades?

Taís Oliveira – A primeira coisa a ser feita é saber onde se quer chegar e traçar um caminho para esse objetivo. Com esse desenho bem traçado, é possível visualizar em uma pequena escala a trajetória. Isso ajuda a descomplicar. E buscar capacitação técnica. Entender em quais áreas você precisa desenvolver habilidades para compor o seu negócio: administração, marketing, por exemplo. E desenvolver uma boa rede de apoio, não só entre familiares e amigos, mas com outros empreendedores negros que já estão em um nível de satisfação com o projeto.

fevereiro 6th, 2019

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Grupo de oito pessoas está reunido em torno de uma mesa discutindo projeto ligado ao Visionários da Cidade, que criou metodologia empreendedora para jovens da periferia

Conheça o projeto de Porto Alegre (RS) que estimula jovens a colocarem em prática negócios de impacto social

Um psicólogo, uma designer e um administrador de empresas uniram forças para criar um projeto voltado a jovens de periferia que desejam transformar sua realidade. Como eles fazem isso? A resposta está no apoio ao desenvolvimento de negócios de impacto social.

O Visionários da Cidade foi idealizado por Daniel Caminha, Liliane Basso e Aron Litvin em Porto Alegre (RS). O trio criou uma metodologia e um conjunto de ferramentas gratuitas para auxiliar jovens a tirar suas iniciativas do papel, fazendo com que sejam agentes de transformação de suas realidades.

Para tornar o programa possível foram articuladas parcerias entre o TransLAB – Laboratório Cidadão e a Brunel University London, com fomento do Newton Fund, por meio do British Council.

Liliane Basso conta que foi a partir do contato com diferentes perfis de jovens e educadores que surgiu a proposta de criar o programa. “Dentro do TransLAB, um laboratório de inovação social, percebíamos que entre os jovens existia uma vontade muito grande de mudar situações que os incomodavam em seus bairros e nos seus contextos de vida. Por outro lado, educadores nos procuravam para saber sobre quais ferramentas poderiam auxiliar os jovens a colocar suas ideias em prática. Diante disso, unimos as duas pontas por meio de um conjunto de atividades para desenvolvimento de projetos de impacto”, explica.

No início, o desafio do Visionários da Cidade era pensar em atividades e experiências para a transformação social, que dialogassem com a linguagem dos jovens e, ao mesmo tempo, com a dos educadores.

Quando conseguiram encontrar esse ponto de contato entre os dois universos, desenvolveram algumas de suas missões: a criação de estratégias para o enfrentamento da realidade, auxiliar os jovens na compreensão de seu contexto social de atuação e na identificação de oportunidades em seus territórios.

Conectando orientadores e transformadores

Da ideia inicial até a estruturação do negócio, todo o processo é acompanhado de perto por um facilitador ou educador voluntário, que pode ser um professor, um agente social ou uma liderança da comunidade. Sua função é, além de orientar na estruturação do projeto, ajudar os jovens a desenvolverem postura crítica e de resiliência diante dos desafios que vão surgir pelo caminho.

A atuação se assemelha a de um mentor: ao lado da turma de trabalho, a pessoa irá ajudar no desenvolvimento de cronogramas para colocar o projeto em prática, reconhecer a expectativa do grupo e, claro, aplicar a metodologia de acordo com a necessidade da turma.

É possível que o desejo de mudar a realidade surja também do próprio facilitador, que pode desenvolver um projeto e inspirar uma turma a embarcar nessa jornada com ele. Quando o grupo estiver formado, todos devem estar engajados e ter um objetivo acima de todos: causar impacto positivo na sociedade.

A atitude empreendedora para a transformação social

São três os pilares que devem nortear o caminho para o desenvolvimento dos negócios de impacto, de acordo com a metodologia Visionários da Cidade: viabilidade econômica da iniciativa, pensamento sistêmico (levar em consideração as diferentes relações que o projeto pode estabelecer) e atitude ativista (a consciência de que fazer o bem é seu papel no mundo).

Com essa perspectiva em mente, o próximo passo é seguir a metodologia, que está disponível de forma gratuita por meio da plataforma digital e do aplicativo do projeto.

Quem já encontrou soluções criativas para suas inquietações com a ajuda do Visionários da Cidade foram as idealizadoras da Mosh, um ateliê de publicidade musical destinado a artistas independentes. Ao perceberem que os músicos de Porto Alegre não tinham recursos para a criação de peças para divulgação de seus trabalhos, elas passaram a realizar a atividade de forma mais colaborativa e acessível para os artistas independentes.Os youtubers à frente do Expoente Zero também passaram pela metodologia e colocaram em prática um canal que mostra eventos culturais nas favelas da capital do Rio Grande do Sul. Jovens da periferia são capacitados para falarem sobre a realidade de onde vivem e serem protagonistas de suas histórias.

O futuro dos Visionários

Jovens sentados em cadeira formam plateia em palestra de projeto ligado ao Visionários da Cidade, que criou metodologia empreendedora para jovens da periferia

Em pouco mais de um ano de existência, mais de 50 jovens já desenvolveram seus projetos com a metodologia do programa. Os idealizadores também têm atuado em escolas de Porto Alegre, realizando a formação dos educadores para estimular seus alunos a pensar no empreendedorismo social como uma possibilidade de resolução de problemas em seus contextos de vida.

Em dezembro de 2018, Liliane Basso, que também é professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing no Rio Grande do Sul, conquistou o terceiro lugar do Prêmio Brasil Design Award, com o Visionários da Cidade, na categoria “Projetos de Impacto Positivo”.

Para os próximos anos, a ideia é que o projeto ganhe o Brasil e a América Latina. “Queremos trabalhar com instituições de ensino e de fomento ao desenvolvimento de projetos de impacto social. Ao mesmo tempo, estamos em busca de parceiros para acelerar as melhores iniciativas, além de criar um banco de investimento para esses projetos”, revela Lilian.

dezembro 26th, 2018

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O desenhista Magno Borges, as autoras Priscila Pacheco e Luana Nunes, e as jogadoras Júlia Reis, Lucivânia Silva e Andreza dos Santos estão posando como um time durante lançamento da HQ sobre futebol feminino

A publicação Minas da Várzea retrata os desafios das mulheres de Parelheiros que fazem de tudo para conseguir praticar o esporte que amam

Apita o árbitro, rola a bola. Em campo, mulheres que antes mesmo de calçarem as chuteiras precisam sair driblando diariamente barreiras que passam por preconceito da família, situações de assédio, falta de tempo e espaço para treinar, e de dinheiro para conseguir pagar pela participação em torneios. O esforço vale a pena porque é ali, no campo esburacado, na partida sem regras rígidas de organização, que essas guerreiras exercem a maior de suas paixões.

A beleza e as dificuldades do futebol feminino de várzea foram retratadas na reportagem em HQ Minas da Várzea, publicada pela Agência Mural de Jornalismo das Periferias. Para produzir o material, a jornalista Priscila Pacheco, de 30 anos, foi até o distrito de Parelheiros, extremo sul da capital paulista, em direção à aldeia indígena do povo Guarani Mbya e ao campo de terra laranja do bairro Vargem Grande, regiões onde a cultura do futebol feminino é muito forte.

Acompanhada dos desenhistas Alexandre de Maio e Magno Borges, a repórter acompanhou a performance do time Minas do Toque, que na complexidade de suas jogadoras traz histórias preciosas como a de Josiana, que jogou grávida e voltou ao campo 40 dias após o parto. Ou de Lucivânia Silva Lima, que faz faxina pesada de segunda a sexta e mesmo assim tem energia para jogar futebol em dois times, aos sábados e domingos. “Eu amo jogar, largo qualquer compromisso para estar em campo. Sou atacante, mas pego até no gol quando precisa. Só o jogo é que não pode parar”, diz.


“O futebol é fio condutor para falarmos de várias coisas, como discussão de gênero, falta de saneamento básico nas periferias e também sobre as transformações do território, de como São Paulo vai se modificando do centro às regiões mais afastadas”, conta Priscila.

 

A escolha da HQ foi a forma encontrada de instigar o debate por meio do jogo entre imagens e palavras, como explica Magno. “Nós não temos representação gráfica para a periferia. Usamos a HQ para buscar esse viés mais artístico”.

A repórter Priscila Pacheco e o desenhista Magno Borges estão sentados ao lado de jogadoras em um banco, rodeado pelo público no lançamento da HQ sobre o universo do futebol feminino.

Bate-papo de lançamento da HQ Minas da Várzea, sobre o universo do futebol feminino.

Família dentro e fora de campo

A presença de filhos das jogadoras chamou a atenção da jornalista. Enquanto as mães estavam em campo, quem esperava a vez na arquibancada pegava para si o papel de cuidar das crianças. “Pensei que elas levavam os filhos porque não tinham com quem deixar, mas a verdade é que essa é uma forma de aproveitarem o final de semana em família”, explica Priscila.

“Minha filha vai em todas, é minha torcedora mais fiel”, afirma a zagueira Andreza Ricardo dos Santos, que montou o time há dois anos – e levou um ano de muita insistência para convencer os times masculinos a darem espaço ao torneio feminino. Mais do que capitã, é uma referência em engajamento.


“Nós passamos por muitas dificuldades, por isso sempre ajudamos umas às outras, seja com dinheiro para condução ou com apoio emocional. Somos família, dentro e fora de campo”, diz Andreza.

 

Sororidade, que pode ser definida pela união entre mulheres baseada na empatia e no companheirismo, é a palavra usada pela jogadora Júlia Reis, de 20 anos, para definir a aliança que se forma entre os times femininos, sejam eles de várzea ou não.

“A gente passa por tanta coisa que não tem como a gente não ser unida. Voltar para casa de chuteira e shorts é motivo para ser assediada, nós lutamos o tempo todo para termos direitos iguais aos homens. No time, se uma sofre, todas vão sofrer. Quando o treino é de noite, ninguém dorme até a última chegar em casa e mandar mensagem dizendo estar segura”, conta ela, que prestou consultoria para a HQ.

Imagem mostra uma das páginas da HQ sobre futebol feminino. No desenho, duas jogadoras estão dando entrevista à autora Priscila Pacheco.

Um esporte invisível

Em setembro, a jogadora Marta Silva entrou para a história como a maior vencedora da Fifa. Pela sexta vez, ergueu a taça de Melhor Jogadora do Mundo. Porém, nem mesmo sua figura vitoriosa fez com que o futebol feminino ampliasse sua força no Brasil.

Como apontou uma reportagem do Globo, só a partir de 1979 que a participação das mulheres em campo passou a ser permitida pela legislação nacional. Em comparação ao masculino, o futebol feminino brasileiro tem defasagem de tempo, número de praticantes, competições, exposições na mídia e recursos.

Isso se reflete em dificuldades de todos os tipos, para qualquer categoria de futebol feminino, dos amadores aos profissionais. Horários de reserva para treino são restritos, chuteiras feitas para o sexo feminino não existem.

“Ano que vem vai começar a Copa do Mundo Feminina. Se o Brasil ganhar, vamos ser hexa ou só vale quando o time masculino ganha? Ninguém está falando disso”, questiona Júlia, ao enfatizar que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) cuida dos times masculino e feminino. “É muito importante a gente questionar essas coisas. Assim, quem sabe daqui alguns anos os times de base possam ser mais estruturados”. Enquanto isso, é jogo que segue!


Produzido através de financiamento coletivo, a HQ Minas da Várzea foi lançada oficialmente na Comic Con de São Paulo, entre os dias 6 e 9 de dezembro, e está disponível para compra em versão impressa ou virtual pelo site da Agência Mural.

Imagem mostra a capa da HQ sobre futebol feminino. No desenho, a jogadora Camila Siqueira dá entrevista à autora Priscila Pacheco.

dezembro 20th, 2018

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Imagem foca as mãos de uma pessoa segurando uma armação da Preza em uma mão e as lentes do óculos em outra. A marca tenta reduzir o impacto ambiental.

A Preza investe nos conceitos de cultura maker para incentivar o consumo consciente

Em 2014, Rodrigo Cury e Martina Sable, dois estudantes universitários de Porto Alegre (RS) decidiram lançar oficialmente um modelo de óculos no qual trabalharam durante todo o ano anterior. Unindo cultura maker e sustentabilidade, a marca de óculos Preza surgiu com o ideal de colocar em circulação no mercado produtos exclusivos, feitos de madeira revisitada e minimizadores de impacto ambiental.

Com o salário de estágio e uma bolsa-auxílio de iniciação científica, os jovens passaram a investir sozinhos no maquinário necessário para a produção dos óculos. Mês a mês, economizaram para adquirir as peças, usando shapes de skates como matéria-prima para a concepção do design.

“Desenvolvíamos os óculos à mão, na cozinha de um apartamento que estava desocupado. Montamos nossa pequena oficina ali, onde produzíamos cerca de 20 óculos por mês”, conta Rodrigo, de 26 anos.

Sobre o processo inicial de produção, Rodrigo diz que não se viam como empreendedores sociais. “Na época, não nos identificávamos com a figura de alguém ligado a tecnologia e frequentador de eventos de networking. Para nós, essa pessoa não estaria em uma cozinha cheia de pó, produzindo em pequena escala”.

Mas foi justamente essa aproximação com os conceitos da cultura do “faça você mesmo“ e a preocupação com as matérias-primas utilizadas que fez da Preza um negócio social em desenvolvimento. Quando os dois sócios decidiram apresentar os produtos para os amigos e fazer um evento de lançamento na cidade, a proposta passou a chamar atenção de empresas consolidadas.

 

Parcerias colaborativas

Uma vez engajados no lançamento da marca, as oportunidades de parcerias que surgiram, tornaram-se prioridade. Os sócios fecharam negócio com uma fábrica de móveis local, a  Aristeu Pires, como fornecedora de matéria-prima. São dos resíduos industriais da marcenaria, que a Preza tira o material para produção dos óculos.

Outra parceria colaborativa foi a proposta da Enzo Milano, marca de circulação nacional, que se interessou pelos valores difundidos pela Preza. Inicialmente, a empresa solicitou uma demanda de 1.000 unidades para integrar à sua coleção. Sem a estrutura necessária para produzir em larga escala, a startup negociou 100 unidades, que foram vendidas pela Milano em menos de um mês.

Foi então que Rodrigo e Martina perceberam a necessidade de expandir os recursos e sugeriram um modelo de negócio colaborativo de co-criação e distribuição das coleções. A Enzo Milano e a Preza lançaram juntas modelos que uniram a proposta sustentável e o reconhecimento de mercado.

Atualmente, a equipe conta com 10 pessoas na produção interna, colaboradores de serviços terceirizados para a laminação e mantém a escala pequena em comparação ao segmento de mercado ótico. “Pretendemos manter essa exclusividade, fazer os óculos à mão e numerando cada novo modelo”, afirma Rodrigo.

“Queremos valorizar todos os parceiros da cadeia produtiva, utilizar resíduos que não degradam o meio ambiente e incentivar empresas locais”, resume Rodrigo Cury.

 

Impacto ambiental e social 

As preocupações com um modelo de negócio inovador e consciente não terminam por aí. A Preza já realizou ações integradas a causas socioambientais e pretende dar continuidade a essas iniciativas em 2019.

Imagem foca as mãos lixando uma armação da Preza. A marca tenta reduzir o impacto ambiental.

“O design tem o poder de desenhar produtos e colocar no mercado ideias que modifiquem a cultura material”, acredita Rodrigo. Para o empreendedor, o impacto ambiental e social estão intrinsecamente ligados. “O nosso papel é transformar socialmente o mundo a partir do consumo consciente. Essa é a razão de existir da Preza”, diz.

Em 2016, a marca lançou um kit colaborativo com o artista Xadalu. O objetivo foi reverter os lucros para ajudar a aldeia Tekoa Pindó Poty, localizada na região de Porto Alegre, no plantio de mudas de Kurupi, árvore nativa da Mata Atlântica e essencial para produzir as esculturas que movimentam a economia da aldeia.

Para o próximo ano, a Preza planeja uma ação em conjunto com a Re.Turn, empresa que trabalha com o desenvolvimento de projetos sociais na região, para levar a cultura do empreendedorismo de impacto para escolas de comunidade de vulnerabilidade social no Rio Grande do Sul.

Acessórios sustentáveis

 Idealizadora do Badu Design, Ariane Santos, posa para foto ao lado de mulheres.

Seguindo a mesma tendência de misturar design, cultura maker e economia criativa, a startup curitibana Badu Design nasceu com o propósito de reduzir o impacto ambiental por meio da produção de materiais de papelaria artesanal, acessórios, decoração e bolsas que utilizam resíduo têxtil industrial.

Além de investir em produtos sustentáveis, a iniciativa idealizada pela empreendedora Ariane Santos também oferece capacitações e compartilhamento de técnicas artesanais dentro do design.  A ideia é facilitar o processo criativo e consciente de negócios que têm a intenção de partir pelo mesmo caminho.

dezembro 14th, 2018

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Monique Evelle está olhando para a câmera, com os braços cruzados. Ela tem cabelos compridos trançados e está vestindo uma blusa de manga comprida vermelha.

Jovem reconhecida pela Forbes, criadora de conteúdo e idealizadora de negócios, como o Desabafo Social, faz alertas e dá referências a quem quer empreender

Eu poderia começar compartilhando todas as vezes que tentei desistir. Mas, optei por falar em possibilidades, até porque desistir não se restringe única e exclusivamente ao empreendedorismo. E, em um contexto como o nosso, precisamos de mais pessoas que sejam positivas e propositivas. Por isso, trago aqui dois cenários do empreendedorismo: o liderado por pessoas negras e o liderado por pessoas da periferia.

Diante de alguns avanços no que diz respeito a debates raciais e de gênero no Brasil, é para comemorarmos o cenário onde os negros são a maioria dos empreendedores, totalizando cerca de 11 milhões. Mas, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) realizada a partir de processamento dos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que o rendimento médio de empreendedores negros e negras passou de R$ 612,00 para R$ 1.039,00 por mês, enquanto que o de brancos subiu de R$ 1.477,00 para R$ 2.019,00.

Essa conjuntura da escassez já existe e é indiscutível. Mas, se olharmos pelo ângulo da abundância, outros cenários estão sendo construídos com a emergência e a sustentabilidade de diferentes negócios liderados por pessoas negras, criando novas perspectivas e potencializando suas ações.

No setor financeiro, temos a Conta Black, a primeira fintech de propriedade de pessoas negras no Brasil, como forma de solução para os pedidos de créditos negados em bancos e inclusão social e financeira da população sem conta bancária. É uma conta digital, criada por Sérgio All e Fernanda Ribeiro, que se propõe a resolver o desafio da população sem conta bancária, consequentemente, sem educação financeira, também responsável pela desigualdade social e estagnação econômica da população negra e pobre.

Quando vamos para a área de moda, temos o Clube da Preta, a primeira fashion box exclusiva de moda afro. Em menos de um ano de operação mais de 800 produtos de afroempreendedores já foram distribuídos. A empresa funciona como clube de assinatura, onde o consumidor pode aderir a planos mensais ou anuais e receber seus produtos em casa. Cada produto é personalizado de acordo com os gostos dos clientes, identificados com pesquisa prévia. Em breve, terão espaço e estão estudando a possibilidade de gamificação a partir da tecnologia digital para os consumidores.

Se imergimos um pouco na história de vida desses empreendedores citados anteriormente, é semelhante, senão igual, à maioria das histórias de brasileiros que vivem nas periferias da Zona Leste de São Paulo, de Cajazeiras em Salvador e da Rocinha no Rio de Janeiro. É importante termos e conhecermos exemplos incríveis e concretos de pessoas que se parecem com a gente para não viciarmos o discurso da impossibilidade de fazer algo e não deixar esse pensamento nos paralisar.

Agora é o momento que você me pergunta: “Tudo bem, Monique, mas como começar a empreender e ser uma dessas referências?”.

É justo perguntar! Talvez, eu nem consiga responder uma pergunta como essa. Mas, trago alguns alertas para você que já iniciou ou quer iniciar sua jornada empreendedora.

O primeiro alerta vem da frase de Ana Fontes, da Rede Mulher Empreendedora:

“Onde vivem, o que comem as pessoas que, mesmo existindo 100 negócios iguais, criam 101, achando que o seu é super, mega diferente?”.

Muitas vezes, fazemos um esforço tão grande para criarmos algo totalmente igual ao que já existe. Já parou para pensar se você não está fazendo isso também? Você sabe por que você quer fazer o que quer fazer? Por que você quer continuar com seu projeto ou negócio? Sua ideia vale o esforço e a energia?

O segundo alerta vem do filme Regeneração, dirigido por Humberto Carrão:

“Todo mundo gosta de um bom filé, mas ninguém quer ver o boi sendo morto”.

Na verdade, essa frase é uma adaptação do que eu sempre digo:

“Nunca compare seu início com o meio de ninguém”.

Já parou para pensar que queremos sucesso a curto prazo e que não enxergamos o processo, apenas o resultado final?

Só no dicionário que a palavra sucesso vem antes de trabalho. Empreender não é simples, mas é possível. Em qualquer área de atuação das nossas vidas, teremos desafios. No empreendedorismo não é diferente.

Sabendo disso, você pode se preparar. Não se deixe enganar que empreender é só talento. Também são estudos para garantir que seu projeto ou negócio continue em pé.

Por isso, comece descobrindo ferramentas gratuitas que vão te ajudar no dia a dia do seu negócio, como o Canva.com (site de ferramentas de design gráfico), o Appear.in (plataforma on-line que permite que você faça videoconferências sem baixar nenhum programa), o PowToon (site para criar vídeos com animações profissionais), o Sebrae Canva (plataforma para desenhar seu modelo de negócio) e o Guia Bolso (aplicativo que gerencia sua vida financeira).

Aproveite para consumir conteúdos de inovação e negócios como os dois TEDx que fiz (O mito de ser feliz fazendo o que ama e O potencial inovador das periferias), ouvir podcasts como o Braincast, o Pense Grande Podcast da Fundação Telefônica Vivo, o CBN Professional e o Producast.

Ou então, siga outros empreendedores nas redes sociais para aprender e conversar com eles, como Matheus Cardoso (Moradigna), Adriana Barbosa (Feira Preta), Ana Paula Xongani (Xongani), Tony Marlon (Historiorama), Mariana Stabile (Sharp), Marco Gomes (Boo-Box), Monique Moraes (Su casa, Mi Causa), Lua Leça (LinkArt) e muitos outros.

Empreender é uma jornada. Abra mão do ego para fazer seu projeto ecoar, enxergue pessoas mais como parceiras do que como concorrentes e, principalmente, entenda que referência não é cópia e que você não terá resultados daquilo que não produz.

dezembro 13th, 2018

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A imagem que ilustra o incentivo ao empreendedorismo mostra a silhueta de dois homens vestindo roupas sociais. Eles estão em pé em frente a uma mesa de escritório em que estão espalhados cadernos, gráficos e outros papéis.

Descubra iniciativas e financiamentos que podem apoiar a sua trajetória empreendedora

Apesar de o mercado brasileiro de startups ainda estar em fase de consolidação, já existe uma série de iniciativas, conjuntos de programas e aparatos legais fomentados em âmbito federal, estadual e municipal para assegurar direitos e apoiar quem está entrando agora no universo do empreendedorismo.

“Temos uma série de políticas públicas e público-privadas que dão suporte ao empreendedor, mas muitos jovens não têm acesso a essa informação”, afirma Diego Silva, porta-voz da Secretaria Nacional de Juventude e coordenador do Plano Nacional de Empreendedorismo e Startups para Juventude. “Nosso objetivo é fortalecer e difundir esses programas, fazendo a articulação para que essas informações cheguem a todas as partes”.

Para mapear algumas dessas ações, fizemos uma lista de políticas públicas de incentivo ao empreendedorismo no Brasil. Confira nossas dicas abaixo:

 

1. InovAtiva

Programa de aceleração gratuito oferecido pelo governo federal e promovido pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), em parceria com o Sebrae, tem como objetivo disponibilizar cursos de capacitação e conexões com potenciais investidores.

Quem participa recebe cursos online de empreendedorismo inovador, mentorias e workshops com empresas, como Google e Microsoft, além de entrar em contato com fundos investidores e parceiros. Entre 2013 e 2018, aproximadamente 740 startups de todas as regiões do país entraram no ciclo de aceleração do programa.

 

2. StartOut

 Fruto de mais uma parceria entre o MDIC e Sebrae, opera como um programa voltado para a inserção de até 15 startups brasileiras em ecossistemas de inovação promissores em todo o mundo. O processo de seleção é rigoroso e leva em consideração critérios que ranqueiam as melhores iniciativas do país.

O objetivo é ganhar a chance de expandir os negócios no mercado no exterior, conhecer investidores privados e passar por uma imersão no país determinado pelo StartOut.

 

3. StartUp Brasil

Foi criado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), junto de setores privados parceiros, em 2012.  A iniciativa integra o chamado Programa Brasileiro de Aceleração de Startups.

Para participar do StartUP Brasil, as empresas recém-criadas têm de ter negócios voltados para o desenvolvimento tecnológicos e trazer cases de sucesso, recebendo apoio para contribuírem diretamente com a área de pesquisas em TICs (Tecnologias da Inovação e Comunicação).

 

4. FINEP StartUp

Já o programa lançado pelo instituto FINEP (Empresa Brasileira de Inovação e Pesquisa) propõe financiamento para novas empresas. A FINEP StartUp se compromete em apoiar os empreendimentos após a fase de aceleração, com recursos como financiamento coletivo, venture capital e Seed Money.

Os investimentos vão até R$ 1 milhão, dependendo da necessidade de cada empresa. Quanto aos projetos participantes podem representar diferentes segmentos, desde que os produtos já estejam em fase de protótipo e tenham base tecnológica. A seleção das 25 empresas finalistas se dá por meio de edital público e passa por Comissão Avaliadora.

 

5. ENIMPACTO

Em 2017, a Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto conseguiu, por meio de um acordo de cooperação com o MDIC, a assinatura do decreto presidencial nº 9.244 para a criação da Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto (ENIMPACTO).

Ainda embrionária, a estratégia visa promover o engajamento de órgãos do governo, setor privado e sociedade civil na consolidação de uma articulação entre esses diferentes atores para o fortalecimento de um ambiente favorável ao desenvolvimento de empreendimentos que gerem transformação social.

 

6. SEED

Embora seja um programa local de incentivo ao empreendedorismo, as oportunidades oferecidas pela aceleradora do governo estadual de Minas Gerais se estendem para empreendimentos no mundo inteiro que queiram desenvolver seus negócios no estado brasileiro.

O Startups and Entrepreneurship Ecosystem Development (SEED) é mantido pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (SEDECTES) e tem como objetivo transformar Minas Gerais no maior polo de empreendedorismo e inovação da América Latina.

O SEED dura seis meses e abriga 40 startups, que recebem capital semente. A participação está aberta a brasileiros e estrangeiros (naturalizados ou que possam ficar no país para participar de todo o programa), ter idade mínima de 18 anos e formar uma equipe de 2 a 3 empreendedores.

 

7. Minha Primeira Empresa

É também uma iniciativa regional em expansão. Idealizado pela Federação das Associações de Jovens Empresários e Empreendedores (FAJE) de Goiás, o programa tem como diferencial o apoio, capacitação e acompanhamento de empreendedores em fase inicial, que não necessariamente tenham uma empresa, mas possuam boa iniciativa.

Em 2014, o Minha Primeira Empresa foi oficializado pela CONAJE e passou para uma fase de estudo para expansão do modelo para outros estados. Os participantes, selecionados por meio de edital, contam com capacitação, mentoria, captação de recursos e acompanhamento durante dois anos após o fim do período de aceleração.

novembro 28th, 2018

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Jovens participantes do curso de formação em mercado financeira, promovido pela Ganbatte posam para foto

Conheça três empreendimentos sociais que promovem o aumento de oportunidades para jovens da periferia, mulheres negras e população em situação de rua

Quem pretende ingressar no competitivo mercado de trabalho brasileiro percebe logo que muitas vezes o ensino superior não basta. Ter no currículo o domínio de outros idiomas, conhecimentos de software e experiência internacional contam pontos a mais com recrutadores. O problema é que tudo isso exige investimento, um empecilho para jovens de baixa renda.

Foi a partir dessa percepção, baseada em sua experiência pessoal, que a carioca Karen Freitas Franquini, de 27 anos, criou a Ganbatte, empresa que oferece serviços de recrutamento, seleção e desenvolvimento de profissionais de baixa renda. “Não basta ter acesso à universidade por meio de bolsas. É preciso ter um currículo competitivo para se inserir no mercado de trabalho”, explica Karen.

Assim, a Ganbatte – expressão japonesa de encorajamento que significa “aguente firme, não desista, faça o seu melhor!” – foca na avaliação de competências comportamentais para a realização de um processo seletivo inclusivo. “As empresas costumam contratar pela competência técnica. Nós olhamos para características como resiliência, determinação e criatividade, que não faltam aos jovens da periferia”, afirma.

 

Recrutamento e capacitações

 A jovem Karen Franquini e outro jovem rapaz, estão sentados em volta de uma mesa olhando para um notebook.

Karen Franquini (à direita), idealizadora da Ganbatte, capacita jovens para o mercado de trabalho.

Incubada pelo Pense Grande em 2017, a Ganbatte presta serviços de recrutamento para oito empresas e ajudou a ampliar oportunidades para jovens como Luana Mendes, que hoje é gerente de relacionamento de um banco após dois anos de buscas incessantes, e Misael Gonçalo, que realizou o sonho de trabalhar com audiovisual.

“Às vezes, a gente que vive e mora na Baixada Fluminense acaba contaminado por uma cultura que diz que não somos bons o suficiente ou que não podemos fazer algo. Mas como o próprio lema da Ganbatte diz, a gente precisa persistir e se esforçar para mudar nossa realidade”, diz Misael.

Os cursos de capacitação realizados pela empresa já beneficiaram 800 pessoas. São mais de oito mil usuários da plataforma, de 20 estados do Brasil. Segundo Karen, cada processo seletivo que a Ganbatte inicia recebe uma média de 100 a 150 candidatos por vaga. Recentemente, Karen realizou o processo seletivo de três vagas para a Barkus, também incubada pelo Pense Grande, e se surpreendeu com o número de inscritos: 465!

“Acho que esses números mostram o potencial da Ganbatte para fazer a diferença na vida dos jovens e tornar o mercado de trabalho mais justo”, acredita.

 

Diversidade racial

 As irmãs Jéssyca e Monique Silveira, fundadoras da RAP- Rede de Afro Profissionais posam para foto

As irmãs Jéssyca e Monique Silveira, fundadoras da RAP- Rede de Afro Profissionais

O quadro de desigualdades presentes no Brasil faz com que a população negra seja a menos escolarizada, com menores salários e a que mais sofre com as ondas de desemprego, traço do racismo estrutural institucionalizado no país. Os números são ainda mais preocupantes quando se trata de mulheres negras, que sofrem duplamente com discriminação de gênero e preconceito étnico-racial.

Enquanto fazia seu mestrado, a historiadora Jéssyca Silveira, de 26 anos, começou a se inquietar com esses dados e com a discrepância entre a população negra, especialmente mulheres, que ocupavam cargo de lideranças e ocupações informais ou empregos mal remunerados. Junto com a irmã Monique, de 31 anos, criou a RAP – Rede de Afro Profissionais, empresa de recrutamento que promove a diversidade racial.

“Começamos com um grupo de Facebook para incentivar que mulheres negras contratassem produtos e serviços umas das outras, além de indicar oportunidades de trabalho como forma de fazer o dinheiro circular. O grupo cresceu e hoje somos quase 15 mil mulheres negras em rede!”, comemora Jéssyca.

Já com o status de empresa que oferece solução de equidade racial para empresas privadas, a iniciativa também participou do Pense Grande Incubação e se prepara para trilhar uma longa jornada, como afirma a fundadora. “A RAP é uma ferramenta para construir ambientes de trabalho mais produtivos e uma sociedade mais próspera”.

 

“Cada vez mais empresas compreendem a importância da diversidade, seja pela responsabilidade social ou por viés econômico. A RAP é um dos caminhos para a mudança e para que a sociedade entenda que um país com discriminação não prospera”, Jéssyca Silveira.

 

Mudança, por favor

Fora do Brasil, uma iniciativa vem ganhando atenção por trazer pessoas em situação de rua de volta ao mercado de trabalho. Criada em 2015 no Reino Unido, a Change Please oferece treinamento de barista, alojamento e trabalho em cafeterias móveis no país. São 32 em operação e 120 pessoas já tiradas das ruas.

O sucesso foi tanto que a rede já chegou aos Estados Unidos, nas cidades de Nova York e San Francisco. O idealizador Cemar Ezel não descarta uma expansão para a América Latina, como contou à Exame. A maior barreira do negócio ainda é o preconceito. “Foi difícil superar a concepção de que os sem-teto não querem trabalhar e que são preguiçosos. Eventualmente as pessoas visitam o café e percebem o quão incríveis eles podem ser”, declarou Cemar.

novembro 23rd, 2018

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Na imagem é possível ver diversas pessoas formando a plateia do 1º Encontro de Negócios de Impacto Social. Elas estão sentadas em cadeiras laranjas e azuis.

Empreendedores e pesquisadores estiveram juntos para pensar como podem contribuir para a transformação social

Com o objetivo de estimular, instigar e disseminar a cultura dos negócios de impacto social, o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e a Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos) realizaram o 1° Encontro de Negócios de Impacto Social, em Porto Alegre, no dia 14 de novembro.

A programação, que também faz parte da Semana Global do Empreendedorismo, abordou negócios com propósito, ecossistema de finanças sociais e o papel das incubadoras para a consolidação dos empreendimentos.

Estiveram presentes empreendedores, conselheiros públicos, pesquisadores, estudantes e interessados em negócios que gerem impacto positivo para a sociedade e o meio ambiente.

Para Tulio Pinheiro, coordenador de projetos do Sebrae do Rio Grande do Sul, o encontro une diferentes forças para pensar o futuro dos negócios de impacto social, porque “não é uma só pessoa que vai transformar as empresas, mas sim um grupo. A partir da diversidade de perspectivas podemos refletir de forma mais completa sobre como os empreendimentos podem contribuir para transformar a realidade das pessoas”.

Quem participou da programação destaca a diversidade de pontos de vista sobre o tema como ponto positivo. “O Encontro dá uma perspectiva completa sobre o assunto, porque coloca lado a lado o poder público, o setor privado e o terceiro setor para pensar iniciativas de transformação da sociedade que venham para se complementarem”, opina Lígia Vasconcellos, a consultora em impactos de projetos.

 

Um negócio para ganhar dinheiro ou para mudar o mundo?

“Prefiro ser parte de uma montanha a ter uma lombada sozinho”. Essa é a frase usada por Geraldo Campos, professor e chefe do Laboratório de Inovação e Empreendedorismo da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), para definir o pensamento dos jovens que se aventuram a tentar transformar a realidade por meio de seus empreendimentos.

Qual a diferença entre negócios sociais e negócios de impacto social?

O empreendedor social bengali Muhammad Yunnus foi quem popularizou o primeiro termo ao descrever iniciativas de empresas que buscam solucionar questões sociais e/ou ambientais. São empreendimentos economicamente sustentáveis e que reinvestem os lucros dentro do próprio negócio.

Já os negócios de impacto social, além de buscarem a transformação de vidas, também  possibilitam que os lucros sejam divididos entre seus investidores.

Na palestra Negócios com Propósito, o professor abordou a diferença de mentalidade e comportamento entre os empreendedores que querem causar impactos positivos na sociedade daqueles que pensam os negócios exclusivamente como uma possibilidade de gerar lucro. Segundo o especialista, os jovens empreendedores sociais veem a sociedade a partir de uma lógica de compartilhamento – num incessante agir, aprender e construir, buscando respostas para seus problemas de forma coletiva.

 
“A jornada do empreendedor não é reta, pelo contrário. É cheia de altos e baixos e os empreendedores precisam ser plásticos, mais do que resilientes, para saber o que fazer a cada não que receberem. Saber lidar com os momentos difíceis e com as dúvidas é muito importante, porque precisamos de empreendedores de todos os tipos, em todas as áreas, para acompanhar as mudanças pelas quais a sociedade tem passado. Só em conjunto que se consegue chegar a algum lugar”, aponta o professor Geraldo Campos.

 

Importantes parceiras dos empreendedores

Algumas das maiores aliadas para tirar uma ideia do papel são as incubadoras, que apoiam micro e pequenas empresas com grau significativo de inovação, oferecendo-lhes suporte técnico, gerencial e de capacitação.

A gerente do IEITEC (Instituto Empresarial de Incubação e Inovação Tecnológica), Daniela Lima, ressaltou que “trazer o equilíbrio entre o propósito dos empreendedores e a sustentabilidade do negócio é a grande missão das incubadoras”, durante a palestra O Papel das Incubadoras e Organizações que Apoiam e Desenvolvem os Negócios de Impacto Social.

Mulher palestra do 1º Encontro de Negócios de Impacto Social. Outras quatro pessoas estão no palco, todas sentadas em cadeiras.

 

A decisão de conceder apoio aos negócios de impacto social geralmente é baseada em alguns eixos, que podem envolver o tamanho do impacto do empreendimento, a forma de gerir o negócio, o uso da tecnologia, o capital necessário para investir, a relevância do empreendimento para o mercado e o comportamento do empreendedor.

Para Gabriela Ferreira, diretora técnica da Anprotec (Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores), o fato de um negócio de impacto social não ser incubado por uma grande instituição, não é motivo para desistir.

“Em alguns anos, esperamos que todos os novos negócios sejam de impacto social e que as empresas tradicionais reflitam sobre as implicações socioambientais de suas atividades. Ter essa preocupação é pensar num futuro sustentável tanto para o meio ambiente quanto para as empresas”, aposta a diretora.

A programação do 1° Encontro de Negócios de Impacto Social contou ainda com a entrega do Prêmio Roser que reconhece as melhores iniciativas de empreendimentos de impacto em Porto Alegre. O projeto vencedor desta edição foi o Missão Diversão, que pretende sensibilizar casais à adoção tardia. Durante seis meses, o empreendimento será incubado pela Unitec, a unidade de negócios da Unisinos.

O Brasil tem 579 negócios de impacto social mapeados, segundo pesquisa da Pipe. Social, e cerca de 63% deles estão localizados na região Sudeste do país.

As principais áreas de atuação dessas iniciativas são: educação (38%), tecnologias verdes (23%) e cidadania (12%).

Entre as maiores urgências para os empreendedores são mencionadas: a busca de investidores (46%), formas eficientes de comunicar sobre o negócio (18%) e mentoria (16%).

novembro 23rd, 2018

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A jovem Thais Ferreira sentada em uma escada pintada com a bandeira do Brasil.

Às vezes, a vontade de abrir o próprio negócio vem de berço. Conheça histórias de quem contou com o apoio da família para tirar as ideias do papel

Iniciar uma jornada empreendedora nem sempre é um caminho fácil e rápido. Talvez por isso, muitas famílias fiquem preocupadas quando percebem o jovem engajado em montar o próprio negócio. A pesquisa Juventude Conectada – Edição Especial Empreendedorismo apontou a tendência familiar em estimular mais a busca por segurança financeira do que a autonomia nos negócios, uma vez que o empreendedorismo ainda é visto por muitos como algo arriscado e transgressor.

Incentivo da família é o que não falta ao jovem Cairê Moreira, que está engajado em quebrar padrões e revolucionar a indústria da moda no Brasil

Arriscado e transgressor são justamente as palavras que resumem a GENYZ, empresa recém-criada por Cairê Moreira, de 24 anos. Formado em animação, o jovem decidiu usar seus conhecimentos para revolucionar a indústria da moda no Brasil. Através do escaneamento 3D do corpo, ele propõe a confecção de roupas completamente  personalizadas, combatendo padrões e atuando em prol da autoaceitação.

Quando os pais souberam que Cairê estava seguindo por esse caminho, não faltou apoio. A mãe, Lina, e o padrasto, Alexandre, trabalham na Universidade Federal no ABC. Com frequência, apresentam pessoas da área de tecnologia para dar aquela força aos negócios do filho. Já o pai de Cairê, Davi, é uma grande inspiração para o jovem.

Ativista em uma ONG que luta pela conscientização da anemia falciforme – doença hereditária que atinge principalmente a população negra -, Davi ensinou ao filho, pelo exemplo, que não há limites para lutar pelo o que acredita. “Ele sempre atende aos compromissos dele, nunca recusa responsabilidades e não mede esforços para lutar pelo o que acredita. Tem essa teimosia boa e acho que puxei dele”, diz.

 

 

 

 Empreendedorismo de berço

E quando a veia empreendedora vem de casa? Dona Neide e seu Ilton eram funcionários públicos, mas para complementar a renda sempre foram adeptos do empreendedorismo correria, como define a filha, Thais de Souza Ferreira, de 30 anos: “Meu pai vendia abacaxi fatiado, coco na praia, picolé na porta de casa e churrasquinho. Minha mãe sempre empreendeu em família, costurando com minha avó, vendendo quitutes no portão, roupas. Ela e a irmã chegaram a montar um serviço de buffet para festas”.

Ao observar essa dinâmica familiar, a carioca foi crescendo com a vontade de criar o próprio negócio. Experimentou vários empreendimentos até criar, em 2016, o Mãe&Mais. Incubado pelo Pense Grande, o negócio social oferece serviços e informações de saúde e bem-estar para gestantes, mulheres e crianças na primeira infância.

Organização, administração da renda, vontade de aprender e compartilhar conhecimento foram alguns dos ensinamentos que os pais da jovem transmitiram a ela e que hoje são fundamentais em sua vida profissional. “O que mais me inspirou foi o compromisso com o impacto positivo nas comunidades e a noção de sustentabilidade que eles sempre tiveram”, conta Thais. “Sabe empreender com propósito? Digo, com orgulho, que aprendi em casa!”.

O mesmo aconteceu com Fábio Hideki Takara, de 30 anos. A convivência com os pais empreendedores, donos de confecções de jeans, despertou nele a vontade de seguir pelo mesmo caminho. Em 2016, criou a Firgun, plataforma que conecta investidores a empreendedores de baixa renda, facilitando o acesso ao micro-crédito.

O peso da responsabilidade e o esforço para conseguir o que deseja são as maiores lições que aprendeu em casa. “Aos dez anos, eu guardei por meses os R$ 2 que ganhava diariamente para comprar merenda na escola. Fazia meu próprio lanche e economizava. Com o dinheiro, quitei as prestações de uma televisão para o meu quarto”, relembra. “Desde pequeno, minhas irmãs e eu aprendemos que as conquistas só chegam com sacrifícios”.

O maior professor

André de Aquino Pinto sentado em um banco do posto de gasolina, do qual trabalha como gerente.

O convívio com o comércio do pai, André, foi determinante para as escolas profissionais do filho Luiz Fernando.

Traço comum na história de imigrantes portugueses, André de Aquino Pinto seguiu a carreira de comerciante do pai. Dono de um bar na zona oeste do Rio de Janeiro, ele encantava clientes com simpatia, cuidado e inovação, que ia dos tira-gostos a ambientação do espaço. “Um misto de pé sujo à la Brasil com o charme da tasca portuguesa”, define o filho Luiz Fernando Pereira Pinto, de 28 anos.

A convivência com o dia a dia do pai foi essencial para Luiz. Ele conhecia todos os fregueses que circulavam pelo espaço, ganhava com frequência presentes dos mais variados, de livros a vara de pescar. “A pesca nunca foi de meu interesse, já os livros…”, conta o rapaz que hoje é um dos fundadores do Nuvem Poética, uma plataforma para conectar, potencializar e dar visibilidade à poesia contemporânea. O empreendimento também está sendo incubado pelo Pense Grande.

Mais do que os livros, a maior inspiração para Luiz foi mesmo o pai, que além de valorizar os estudos, impressionava com sua sabedoria. Entre servir uma bebida para um freguês e preparar o prato do dia, ele contava ao filho histórias que envolviam artes, passavam pelo processo histórico de formação do Rio de Janeiro e terminavam nos livros que ele já tinha lido.

Com o pai, Luiz foi aprendendo muitas coisas: falar em público, o apreço por ouvir e contar histórias, estratégias de gestão, administração financeiras e até o olhar para tendências. “O bar foi uma escola e meu pai era o professor. Ali, naquele ambiente, eu conheci Hermeto Pascoal, um dos maiores músicos do país! Também conheci seu Pedro, que tem a fama de ser um dos pescadores mais mentirosos do Rio, além de João, um vendedor de amendoim super criativo do bairro, dentre tantas outras figuras que me inspiraram e que carrego até hoje”, conta ele.

Com o tempo, André teve que fechar o bar, passando de empreendedor a funcionário. Porém, até hoje é uma das grandes referências do filho, cheio de conselhos e ideias que inspiram os negócios de Luiz. “Apesar do meu empreendimento ser diretamente ligado a cultura, meu pai sempre faz uma ligação com o comércio. Comprovo a ideia de que há mais semelhanças do que diferenças, afinal a cultura está presente em qualquer canto”, conclui.

novembro 19th, 2018

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Imagem mostra o empreendedor Celso Athayde. Ele veste camisa branca e paletó preto

Criado nas ruas e favelas do Rio de Janeiro, o empresário ganhou o prêmio Empreendedor social (2017) e movimenta um conglomerado social com 22 empresas em comunidades cariocas.

“Nunca pensei em transformação social”, afirma Celso Athayde, nomeado pela ISTO É Dinheiro como o empreendedor social do ano em 2017. Ele é fundador da CUFA (Central Única das Favelas) e da Favela Holding, um conglomerado de 22 empresas que geram empregos e movimentam a economia de comunidades no Rio de Janeiro.

A trajetória do empresário carioca é considerada referência como superação dos obstáculos e inspiração para o desenvolvimento de ferramentas de transformação social. “Um trabalho na favela, seja ele qual for, é social por excelência, não precisa ter um discurso”, afirma Athayde que, aos 55 anos, relembra o período em que teve de deixar seu barraco na Baixada Fluminense aos seis anos de idade e foi morar na rua. “Nós somos a representação física, estética e moral da transformação social”, afirma.

Para o empresário, sobreviver era a prioridade. Nos abrigos públicos e nas favelas pelas quais passou aprendeu com as disputas da rua, muitas vezes recorrendo a furtos, drogas e trabalhos informais para sobreviver por mais um dia. As experiências acumuladas nesse período transformaram a visão de Celso Athayde para a realidade das favelas e das pessoas que moram nesses territórios.

Por outro lado, ele entrou em contato também com a potência desses espaços, como as inúmeras manifestações artísticas das juventudes negras que expressam o contexto em que vivem através da música, da dança e da rima. O ponto de virada foi justamente o contato com o movimento Rap, que acendeu a fagulha revolucionária que levaria Athayde a refletir sobre a vida dos jovens na favela.

Ciclo de potência 

A partir desse primeiro contato, há 20 anos, Celso passou a empresariar cantores influentes como MV Bill e Nega Gizza. Mas isso não bastava. Criar uma “indústria de protesto”, como o próprio empresário define, não era seu objetivo principal, mas acabou se concretizando em meio à busca de soluções reais para ampliar uma rede de espaços para os jovens se expressarem, desenvolverem atividades de lazer, educativas e culturais.

Com a ajuda de amigos e parceiros como o próprio MV Bill, nasceu a organização social Central Única das Favelas, conhecida como CUFA, visando valorizar a vida das pessoas. Tal iniciativa conquistou prêmios nacionais e internacionais, foi reconhecida pela ONU (Organização das Nações Unidas) e ampliada para outras comunidades ao redor do mundo.

Em consequência dessa articulação, outras ações foram estruturadas posteriormente, pois é necessário investimento constante para reais soluções nas favelas. Em 2013, é fundado o conglomerado Favela Holding, que reúne 22 empresas de negócios sociais que protagonizam a atuação dos moradores, garantindo um envolvimento na economia e geração de renda na região.

Uma dessas iniciativas foi a Favela Vai Voando, uma empresa de viagens voltada para o turismo de moradores das favelas e regiões periféricas brasileiras. No mercado, a FVV foi o primeiro empreendimento a oferecer transporte aéreo e os benefícios para as classes C, D e E.


Não sei se existiu um ponto de virada na minha trajetória. No fundo, o grande momento está para surgir ainda”, acredita Celso Athayde.

Empreender é “se virar”

“Favela não é carência, favela é potência”, reafirma Celso Athayde quando conta a história sobre os empreendimentos que viu se desenvolverem. Buscar o envolvimento desses moradores na construção das ideias é objetivo fundamental para ele, bem como entender as constantes renovações de necessidades pelas quais  passam todos os dias.

Segundo o Data Favela, um instituto criado para investir em pesquisas estratégicas de comportamento e mercado de baixa renda, 28% dos moradores de favelas têm intenção de abrir seu próprio negócio e 59% deles desejam criá-los dentro das próprias comunidades.

“O empreendedorismo da base da pirâmide não é necessariamente uma vocação, mas é uma necessidade de sobrevivência permanente. Aqui a gente não chama isso de empreender, chama isso de se virar”, acrescenta o empresário, mas diz discordar da ideia de que somente o empreendedorismo gera felicidade. Para Athayde, cada perfil de pessoa colabora à sua maneira para o que entendemos como transformação social.

novembro 16th, 2018

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Na imagem, um homem e uma mulher usando roupas sociais estão sentados lado a lado em uma mesa de escritório. Eles usam aplicativos para gerenciar negócios em um smartphone.

Confira lista de apps que facilitam o dia a dia do seu projeto e ajudam em atividades essenciais para empreender com qualidade

Gerenciar o próprio empreendimento social é um desafio e tanto. E tem interessado grande parte dos jovens brasileiros. É o que revela a pesquisa Juventude Conectada – Edição Especial Empreendedorismo, que ouviu 400 pessoas entre 15 e 29 anos de todas as regiões do país, mostrando que 56% dos jovens se consideram empreendedores. O mesmo estudo aponta que 61% busca alinhar a carreira profissional a um propósito, próprio ou coletivo.

Ao tomar a decisão de empreender, é fundamental estar conectado para dar conta de todas as demandas. E um smartphone pode ser o melhor dispositivo para controlar prazos, estabelecer metas e até criar uma rede de apoio com quem tem interesses similares.

Confira nossa lista de apps para impulsionar o seu negócio!

 

Na imagem, o logo do Evernote, um dos aplicativos para gerenciar negócios listados na matéria.

 

Evernote

Para quem trabalha com textos e notas, o aplicativo oferece a possibilidade de criar anotações separadas por cadernos e textos formatados, com cores e em lista, incluindo anexos, imagens, áudios e até mesmo desenhos feitos à mão. É possível sincronizá-lo com smartphones, tablets e desktops. Serve também como uma ferramenta de clipping, ou seja, guarda textos, artigos e outros tipos de conteúdo para serem lidos posteriormente e permite o compartilhamento de todos os conteúdos com demais pessoas.

 

 

Na imagem, o logo do Asana, um dos aplicativos para gerenciar negócios listados na matéria.

 

Asana

Voltado para o processo de gestão de tarefas. A ideia é que, na mesma plataforma, os empreendedores possam ver os serviços e o andamento de cada um deles, incluindo conversas coletivas e privadas, por exemplo. Uma das funções é organizar uma lista de tarefas, separando-a por equipe ou tema, permitindo melhor controle das atividades e até de prazos. Tem integração com aplicativos que podem potencializar as funcionalidades do sistema: Gmail, Dropbox, Google Drive; Google Agenda, entre outros.

 

 

Na imagem, o logo do BeerOrCoffee, um dos aplicativos para gerenciar negócios listados na matéria.

 

BeerOrCoffee

Trabalhar cada dia em um coworking diferente e ainda poder se conectar com pessoas de diferentes áreas. Esse é o objetivo do BeerOrCoffee, ideal para que os empreendedores criem uma rede de apoio. Por meio da plataforma, é possível encontrar pessoas com interesses similares ao seu e, com poucos cliques, convidá-las para um café ou uma cerveja nos próximos 30 minutos. A ferramenta oferece ao usuário a possibilidade de escolher um espaço de trabalho compartilhado em algum lugar do Brasil e experimentar por um dia, sem custo.

 

 

Na imagem, o logo do Meu Negócio em Dia, um dos aplicativos para gerenciar negócios listados na matéria.

 

Meu Negócio em Dia

Criado em parceria com o Sebrae, ajuda a organizar as finanças da empresa ao organizar em gráficos e outros indicadores as informações fornecidas sobre o empreendimento. Há calculadoras que comparam custos de produtos e serviços e simuladores que analisam se investimentos e planos de expansão estão compatíveis com os negócios.

 

 

 

Na imagem, o logo do Google Keep, um dos aplicativos para gerenciar negócios listados na matéria.

 

Google Keep

Aplicativo para substituir anotações feitas em blocos de notas ou nos famosos post-its colados no computador. O Keep é gratuito e possui versões para desktop, além de versão Android e iOS. Tem uma função de lembrete com base no local. Por exemplo, precisa terminar uma tarefa em um determinado período? O app define um lembrete com base no horário para que o usuário não perca essa entrega. É possível adicionar notas, listas, fotos e áudio. Ajuda a manter prazos e qualquer tipo de compromisso, tendo possibilidade de integrar com o e-mail.

 

Na imagem, o logo do Google Drive, um dos aplicativos para gerenciar negócios listados na matéria.

 

Google Drive

Outro app do universo Google, disponibiliza 5 GB para armazenar arquivos, documentos, imagens, pastas e vídeos em nuvem. Ainda permite compartilhar arquivos e também tem navegação offline. É ótimo para evitar problemas com documentos esquecidos no computador, já que é possível acessar o conteúdo onde e quando precisar.

 

 

 

Na imagem, o logo do CamCard, um dos aplicativos para gerenciar negócios listados na matéria.

 

CamCard

Quantos cartões de visita você já trocou e acabou acumulando em alguma gaveta? Este aplicativo foi criado para eliminar essa pilha de papel. Os contatos ficam salvos diretamente no seu celular. O usuário fotografa o cartão de visita com a câmera e, após um rápido processamento, são armazenados a imagem do cartão e os dados do contato na agenda do telefone, ou em uma conta Google. É possível exportar para outros programas e adicionar várias informações complementares. Além disso, oferece reconhecimento por QR Code e assinatura de e-mail.

 

 

Na imagem, o logo do Trello, um dos aplicativos para gerenciar negócios listados na matéria.

 

Trello

É um grande visualizador de listas para projetos de pequeno e longo prazo. A ferramenta utiliza o método de produtividade kanban, que cards dinâmicos para indicar fluxos de produção. É possível dividir áreas de um projeto e acompanhar o progresso de cada um dos setores. O empreendedor consegue dividir as responsabilidades com cada colaborador e equipe, prevendo os resultados com a inclusão de data e cores que representem cada situação. É possível ativar alertas, dar instruções e subir arquivos como imagens e outros anexos.

 

Na imagem, o logo do Meu Atendimento, um dos aplicativos para gerenciar negócios listados na matéria.

 

Meu atendimento

Para empreendedores que lidam com algum tipo de venda direta ao cliente, o aplicativo mede os resultados do atendimento. Por meio de um questionário é informado o motivo pelo qual a compra não se concretizou. O app compila as respostas e as transforma em gráficos e análises. Os dados geram oportunidades e identificam questões de produtividade.

 

 

 

Na imagem, o logo do Smart Recorder, um dos aplicativos para gerenciar negócios listados na matéria.

 

Smart Recorder

O aplicativo de gravação de áudio, disponível para Android, pode ser usado para registrar lembretes e também ideias de forma rápida e simples. Foi projetado para a gravação de som com alta qualidade e de longa duração, por isso, tem uma caraterística de pular o silêncio ou longas pausas. É ideal para gravar reuniões e compartilhar o arquivo com outras pessoas, por exemplo.

novembro 16th, 2018

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A psicóloga Maitê Lourenço sorri para foto. Ela é negra, tem os cabelos curtos, usa óculos de grau e uma blusa com estampa de flores.

Empreendimentos liderados por negros e negras são maioria no país, mas ainda há pouca abertura à diversidade dentro do ecossistema de inovação e startups

Se você tivesse que associar as palavras empreendedorismo, inovação e startup a uma pessoa, como ela seria? Não se espante se vier à mente a imagem de um homem branco, de certo poder aquisitivo, que se inspira em empresários do Vale do Silício. Pois é essa figura, de maneira geral, que tem mais acesso a investimentos, mentorias e programas que ajudam os negócios a crescerem.

Mas ao contrário do perfil acima, maioria dentro do ecossistema de inovação, é o afroempreededorismo que prevalece no Brasil. Um levantamento do Sebrae com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio (Pnad) mostra que 50% dos donos de negócio são negros, 49% brancos e 1% pertencem a outros grupos populacionais. Apesar de maioria, a população negra empreendedora é menos escolarizada, trabalha com menos funcionários, fatura menos e tem menor acesso a crédito e capacitação, traço evidente das relações étnico-raciais construídas com os pilares da desigualdade ao longo da história.

Para inverter essa lógica, é necessário, antes de tudo, falar sobre o assunto. Confira a seguir algumas histórias de emprendedores negros e negras que estão trabalhando para mudar as estatísticas socioecônomicas desfavoráveis a essa parcela da população no país.

Fique de olho!

Em novembro, mês em que se celebra o Dia Consciência Negra e o Mês do Empreendedorismo, traremos alguns cases e perfis de empreendedores negros e negras que se destacam pelo trabalho realizado em prol do desenvolvimento social e econômico da população que vive em periferias brasileiras. Acompanhe em nosso site!

Mobilização em rede

A psicóloga Maitê Lourenço, ao se perceber como única mulher negra nos eventos de inovação que frequentava, tomou para si a missão de promover maior diversidade racial no ecossistema empreendedor. Criou, em 2016, o BlackRocks, um laboratório de inovação comprometido com a aceleração de negócios e pessoas e com desenvolvimento de lideranças. Para compor o quadro de colaboradores, ela escolheu profissionais com tanta ou mais qualificação técnica que empresários de grandes aceleradoras, mas pouco vistos por causa da cor da pele.

Apesar de sua existência recente, o projeto já é considerado referência, com 55 mentores cadastrados e mais de 600 pessoas impactadas. “O BlackRocks criou uma tecnologia social de mobilização em rede”, define Maitê. “Durante e depois da nossa atuação, encontramos diversos empreendedores extremamente criativos, profissionais com muita competência para apoiar e desenvolver empreendedores. Estão cada vez mais criando estratégias de atuação no ecossistema, desenvolvendo negócios em parceria, tornando-se compradores e fornecedores da rede”.

 

Feira Preta

“Treze décadas após a abolição da escravidão no Brasil, o que fez a população negra emergir foi o empreendedorismo”, conta Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta, evento que ocorre anualmente há 17 anos na cidade de São Paulo, reunindo um circuito de atividades econômicas e culturais entre empreendedores negros. Em entrevista realizada em julho à Fundação Telefônica Vivo, ela afirma que os empreendedores negros e negras estão passando da resistência à oportunidade.

A edição do ano passado da Feira Preta contou com a participação de mais de 20 mil pessoas, o que demonstra a importância do evento não só para compartilhamento e divulgação do trabalho de artistas e empreendedores da comunidade negra, mas para a cidade de São Paulo como um todo. É como avalia Gleicy Mailly da Silva, que pesquisou sobre o evento entre os anos de 2012 e 2015 para compor sua tese de doutorado em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo.

“Pensando na valorização e no fortalecimento de práticas culturais e econômicas realizadas por artistas, artesãos e empreendedores negros, mais do que a questão econômica, a Feira Preta tem um importante impacto político”, avalia Gleicy. Para quem está todos os dias na luta, eventos como estes são fundamentais para encorajar mais pessoas, mesmo sabendo que os desafios são imensos.

 

Representatividade ou proporcionalidade?

 A jovem Monique Evelle posa para a foto e tem sua imagem refletida atrás dela. Ela é negra e tem os cabelos trançados na altura dos ombros.

A ativista e empreendedora social, Monique Evelle.

Monique Evelle criou seu primeiro negócio, o Desabafo Social, aos 16 anos. Hoje é dona e sócia de outros tantos, uma das principais vozes do feminismo no Brasil e eleita pela Revista Forbes como uma das mais influentes abaixo dos 30. O desafio que enfrenta diariamente continua o mesmo de sempre: “Minha existência enquanto mulher preta na hora de negociar, porque as pessoas simplesmente não acreditam que eu sou a dona e sócia do negócio”.

A empreendedora social e ativista ressalta que tem dúvidas sobre a pertinência de se rotular a categoria como afroempreendedora, o que pode causar mais preconceito do que aceitação. “Apesar de ser importante reafirmar nosso lugar, colocar sufixos ou prefixos na palavra empreendedorismo me parece legitimar que o normal é ser branco”, questiona Monique.

Monique acredita que mais importante do que a representatividade – ver na mídia matérias sobre mulheres negras e homens negros que se consolidaram como empreendedores de sucesso – é a proporcionalidade. “Proporcionalidade é a gente ver um número significativo de pessoas negras ocupando o mundo dos negócios, a televisão e outros espaços de poder, tal como vemos as pessoas brancas”, defende.

 

Da margem para o centro

Integrantes do Vale do Dendê posam para foto com o logo da iniciativa ao fundo

A holding social Vale do Dendê fomenta negócios da periferia de Salvador.

Na periferia, onde a maioria da população é negra, desde sempre, e desde muito cedo, se empreende para sobreviver. Tanto é que 53% dos empreendedores negros no Brasil começam antes dos 18, com negócios de baixa complexidade e pouco faturamento, como analisou a ativista e empreendedora Ana Karoline Lima, em sua palestra no TEDxFBA,

Com o objetivo de encorajar a mudança desse cenário, surgiu a holding social Vale do Dendê, que cumpre a função de aceleradora, escola de negócios e consultoria com foco em fomentar negócios da periferia de Salvador, a cidade mais negra fora da África.

“Quando falamos de negócios de impacto e inovação, a periferia no Brasil é ouro! Simplesmente porque quem vem de lá tem dois opções: ou inova ou empreende”, define um dos sócios, Rosenildo Ferreira.

 

“Atuamos com empreendedores da periferia porque acreditamos que a potência está na margem, independentemente de ser ou não composta por negros”, Rosenildo Ferreira sobre a Valê do Dendê.

 

Para ele, a falta de um olhar para quem está longe dos grandes centros restringe a potencialidade de crescimento do país. “O Brasil só não é mais desenvolvido por conta do machismo e do racismo institucional. Já imaginou se os investidores começassem a investir mais nas mulheres e nos negros?, afirma Rosenildo, que se orgulha de ter, na Vale do Dendê, 60% de negócios dirigidos por mulheres.

Ao falar sobre resistência e falta de oportunidades, Monique Evelle acrescenta: “Flexibilidade e proatividade, dois termos associados ao empreendedorismo, é quase compulsório na periferia. Nós temos que ser, desde sempre, proativos e flexíveis para continuar existindo”.

novembro 12th, 2018

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