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No comando da Gastronomia Periférica, Edson Leite aposta na profissionalização dos moradores da periferia para gerar impacto e transformação social.

15 de maio de 2019

Foi meio por acaso que o paulistano Edson Leite, de 35 anos, entrou para o ramo da gastronomia. Saído da periferia Jardim São Luís, na zona sul de São Paulo, passou sete anos em Portugal, onde trabalhou como vendedor de listas telefônicas, garçom e lavador de pratos. Quando a vida lhe deu um desafio, ele rapidamente transformou em oportunidade.

Certo dia, a chef de cozinha do restaurante onde trabalhava como garçom faltou e Edson, na cara e na coragem, assumiu as panelas, não sem antes ligar para um amigo cozinheiro e pedir instruções para preparar os pratos.  A ousadia deu tão certo que ele mergulhou fundo na experiência e passou a chefiar cozinhas de hotéis, navios e até hospitais.

De volta ao Brasil, estava decidido a usar a gastronomia como motor de transformação social. No bairro onde cresceu, fundou a Gastronomia Periférica, uma escola totalmente gratuita, com foco na sustentabilidade e o objetivo de formar profissionais de cozinha que possam transformar a sua realidade e a da periferia onde vivem.

Fundada em 2012, começou como oficinas de gastronomia até se tornar escola, em 2017. Desde então, já foram mais de 40 alunos formados no curso de gastronomia e nas aulas de chocolataria e panificação. Em 2019, serão mais três turmas nas aulas de gastronomia e nos cursos de panificação.

Edson também lançou o livro Por que criei a Gastronomia Periférica (Editora Inova, 2018), que traz sua história de luta e dicas de receitas sustentáveis. É também organizador do festival Sabor da Quebrada, que visa promover a economia local. Ao Pense Grande, Edson Leite listou as quatro principais lições que apreendeu durante sua caminhada como empreendedor social. Veja a seguir:


Empreender tem a ver com autonomia e liberdade

Nas quebradas, naturalmente já somos empreendedores. Mas nunca fomos chamados assim, nem nos reconheciam dessa forma. Nossa autoestima foi ferida durante muito tempo, quando nos vendiam a ideia de que só coisas ruins saiam de lá. Na verdade, somos nós que fazemos tudo ser bom: somos mão de obra de grandes empresas, restaurantes, etc. Ainda estamos começando a nos reconhecer, mas já temos uma melhor ideia do que somos e pregamos isso em todas as quebradas para que a gente se fortaleça. Eu vejo o empreendedorismo como um ato de coragem. Toda pessoa é sua própria empresa e ser sua própria empresa é ter autonomia. Eu penso que assumir o empreendedorismo é decidir ser livre.”

 
Inspiração é muito potente na quebrada

“É como jogar uma pedra no rio e ver as ondulações ao redor. Num universo de 280 mil pessoas que é o Jardim São Luís, fazer uma escola de gastronomia já é um negócio impactante. Vejo a molecada mudando a relação com o alimento, querendo empreender, trazendo a mãe, a família para assistir e participar. Esse é o resultado real. A gastronomia periférica passou a ser uma nova categoria de cozinha. Existe gastronomia italiana, chinesa, japonesa, portuguesa, né? E por qual motivo não pode existir a Gastronomia Periférica?”


Tecnologia é aliada

“Nós criamos o aplicativo da Gastronomia Periférica, com mais de 70 dicas gastronômicas no Jardim São Luís, incluindo temakeria, hambúrguer artesanal, carrocinha de churros, de milho e de cuscuz e até aquela senhora que vende coxinha de galinha no terminal de ônibus do bairro! Hoje ele é aberto a todos os estabelecimentos periféricos que quiserem fazer parte. A visibilidade que o app trás faz com que as pessoas passem a conhecer e consumir dos comércios da região. Faz girar a economia local, gerando renda, criando empregos e trazendo mais profissionalização para os comércios, além de promover a diversidade cultural e o desenvolvimento humano.”


A parte técnica é fundamental, mas conseguir atingir os objetivos é o que mais motiva

“Durante a nossa caminhada, aprendemos que um bom planejamento e prospectar gastos e custos são pontos fundamentais para o crescimento do negócio. A gente começa a ver a coisa andar e sente muito orgulho. Quando fomos acelerados pela Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia (ANIP), fizemos estudos sobre o negócio e tivemos aulas com especialistas em impacto. Nesse momento, nós descobrimos que nosso negócio realmente causava impacto social e isso foi, sem dúvida, uma das maiores e melhores lições que aprendemos.”



 

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