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12 de novembro de 2018

Empreendimentos liderados por negros e negras são maioria no país, mas ainda há pouca abertura à diversidade dentro do ecossistema de inovação e startups

Se você tivesse que associar as palavras empreendedorismo, inovação e startup a uma pessoa, como ela seria? Não se espante se vier à mente a imagem de um homem branco, de certo poder aquisitivo, que se inspira em empresários do Vale do Silício. Pois é essa figura, de maneira geral, que tem mais acesso a investimentos, mentorias e programas que ajudam os negócios a crescerem.

Mas ao contrário do perfil acima, maioria dentro do ecossistema de inovação, é o afroempreededorismo que prevalece no Brasil. Um levantamento do Sebrae com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio (Pnad) mostra que 50% dos donos de negócio são negros, 49% brancos e 1% pertencem a outros grupos populacionais. Apesar de maioria, a população negra empreendedora é menos escolarizada, trabalha com menos funcionários, fatura menos e tem menor acesso a crédito e capacitação, traço evidente das relações étnico-raciais construídas com os pilares da desigualdade ao longo da história.

Para inverter essa lógica, é necessário, antes de tudo, falar sobre o assunto. Confira a seguir algumas histórias de emprendedores negros e negras que estão trabalhando para mudar as estatísticas socioecônomicas desfavoráveis a essa parcela da população no país.

Fique de olho!

Em novembro, mês em que se celebra o Dia Consciência Negra e o Mês do Empreendedorismo, traremos alguns cases e perfis de empreendedores negros e negras que se destacam pelo trabalho realizado em prol do desenvolvimento social e econômico da população que vive em periferias brasileiras. Acompanhe em nosso site!

Mobilização em rede

A psicóloga Maitê Lourenço, ao se perceber como única mulher negra nos eventos de inovação que frequentava, tomou para si a missão de promover maior diversidade racial no ecossistema empreendedor. Criou, em 2016, o BlackRocks, um laboratório de inovação comprometido com a aceleração de negócios e pessoas e com desenvolvimento de lideranças. Para compor o quadro de colaboradores, ela escolheu profissionais com tanta ou mais qualificação técnica que empresários de grandes aceleradoras, mas pouco vistos por causa da cor da pele.

Apesar de sua existência recente, o projeto já é considerado referência, com 55 mentores cadastrados e mais de 600 pessoas impactadas. “O BlackRocks criou uma tecnologia social de mobilização em rede”, define Maitê. “Durante e depois da nossa atuação, encontramos diversos empreendedores extremamente criativos, profissionais com muita competência para apoiar e desenvolver empreendedores. Estão cada vez mais criando estratégias de atuação no ecossistema, desenvolvendo negócios em parceria, tornando-se compradores e fornecedores da rede”.

 

Feira Preta

“Treze décadas após a abolição da escravidão no Brasil, o que fez a população negra emergir foi o empreendedorismo”, conta Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta, evento que ocorre anualmente há 17 anos na cidade de São Paulo, reunindo um circuito de atividades econômicas e culturais entre empreendedores negros. Em entrevista realizada em julho à Fundação Telefônica Vivo, ela afirma que os empreendedores negros e negras estão passando da resistência à oportunidade.

A edição do ano passado da Feira Preta contou com a participação de mais de 20 mil pessoas, o que demonstra a importância do evento não só para compartilhamento e divulgação do trabalho de artistas e empreendedores da comunidade negra, mas para a cidade de São Paulo como um todo. É como avalia Gleicy Mailly da Silva, que pesquisou sobre o evento entre os anos de 2012 e 2015 para compor sua tese de doutorado em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo.

“Pensando na valorização e no fortalecimento de práticas culturais e econômicas realizadas por artistas, artesãos e empreendedores negros, mais do que a questão econômica, a Feira Preta tem um importante impacto político”, avalia Gleicy. Para quem está todos os dias na luta, eventos como estes são fundamentais para encorajar mais pessoas, mesmo sabendo que os desafios são imensos.

 

Representatividade ou proporcionalidade?

 A jovem Monique Evelle posa para a foto e tem sua imagem refletida atrás dela. Ela é negra e tem os cabelos trançados na altura dos ombros.

A ativista e empreendedora social, Monique Evelle.

Monique Evelle criou seu primeiro negócio, o Desabafo Social, aos 16 anos. Hoje é dona e sócia de outros tantos, uma das principais vozes do feminismo no Brasil e eleita pela Revista Forbes como uma das mais influentes abaixo dos 30. O desafio que enfrenta diariamente continua o mesmo de sempre: “Minha existência enquanto mulher preta na hora de negociar, porque as pessoas simplesmente não acreditam que eu sou a dona e sócia do negócio”.

A empreendedora social e ativista ressalta que tem dúvidas sobre a pertinência de se rotular a categoria como afroempreendedora, o que pode causar mais preconceito do que aceitação. “Apesar de ser importante reafirmar nosso lugar, colocar sufixos ou prefixos na palavra empreendedorismo me parece legitimar que o normal é ser branco”, questiona Monique.

Monique acredita que mais importante do que a representatividade – ver na mídia matérias sobre mulheres negras e homens negros que se consolidaram como empreendedores de sucesso – é a proporcionalidade. “Proporcionalidade é a gente ver um número significativo de pessoas negras ocupando o mundo dos negócios, a televisão e outros espaços de poder, tal como vemos as pessoas brancas”, defende.

 

Da margem para o centro

Integrantes do Vale do Dendê posam para foto com o logo da iniciativa ao fundo

A holding social Vale do Dendê fomenta negócios da periferia de Salvador.

Na periferia, onde a maioria da população é negra, desde sempre, e desde muito cedo, se empreende para sobreviver. Tanto é que 53% dos empreendedores negros no Brasil começam antes dos 18, com negócios de baixa complexidade e pouco faturamento, como analisou a ativista e empreendedora Ana Karoline Lima, em sua palestra no TEDxFBA,

Com o objetivo de encorajar a mudança desse cenário, surgiu a holding social Vale do Dendê, que cumpre a função de aceleradora, escola de negócios e consultoria com foco em fomentar negócios da periferia de Salvador, a cidade mais negra fora da África.

“Quando falamos de negócios de impacto e inovação, a periferia no Brasil é ouro! Simplesmente porque quem vem de lá tem dois opções: ou inova ou empreende”, define um dos sócios, Rosenildo Ferreira.

 

“Atuamos com empreendedores da periferia porque acreditamos que a potência está na margem, independentemente de ser ou não composta por negros”, Rosenildo Ferreira sobre a Valê do Dendê.

 

Para ele, a falta de um olhar para quem está longe dos grandes centros restringe a potencialidade de crescimento do país. “O Brasil só não é mais desenvolvido por conta do machismo e do racismo institucional. Já imaginou se os investidores começassem a investir mais nas mulheres e nos negros?, afirma Rosenildo, que se orgulha de ter, na Vale do Dendê, 60% de negócios dirigidos por mulheres.

Ao falar sobre resistência e falta de oportunidades, Monique Evelle acrescenta: “Flexibilidade e proatividade, dois termos associados ao empreendedorismo, é quase compulsório na periferia. Nós temos que ser, desde sempre, proativos e flexíveis para continuar existindo”.



 

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