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Jovem de 24 anos usa seu produto para investir em projetos educacionais e potencializar conhecimentos no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro

13 de dezembro de 2019

“Sempre fui um cientista maluco”, se apresenta Lucas Lima, jovem de 24 anos que construiu, no quarto dele uma impressora 3D usando sucata eletrônica. Um ano depois de sua criação, decidiu abandonar a engenharia mecânica, — área em que se formou — para se dedicar ao empreendedorismo social, à educação e ao compartilhamento de conhecimento para a comunidade em que cresceu: o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.

Embora o sonho de Lucas sempre tenha sido ser professor de História, quando conseguiu uma bolsa integral na faculdade particular em que estudou, foi incentivado pelo pai a fazer engenharia. No último semestre do curso, em 2018, sem conseguir estágio na área, começou a trabalhar dentro da faculdade e teve contato com uma impressora 3D disponível por lá. Foi aí que nasceu a vontade de desenvolver projetos próprios.

No entanto, havia um obstáculo: o preço do dispositivo era, no mínimo, R$ 15 mil, algo totalmente fora de realidade dele. Em vez invés de desistir, Lucas passou a pesquisar mais sobre o processo de fabricação de máquinas desse tipo, além de fazer uma triagem dos materiais necessários. Seis meses depois, colocou em prática tudo o que aprendeu usando os recursos que tinha em mãos, processo que levou dois meses.

“Se a fábrica pode fazer, por que eu também não posso? Percebi que era possível fazer uma impressora 3D gastando pouco. Tive a ideia de usar sucata eletrônica para fazer a primeira, que custou R$ 680 reais. Fiz um cartão de crédito e passei a frequentar ferros-velhos diariamente até encontrar uma cooperativa de materiais usados, o que facilitou muito meu trabalho”, compartilha o jovem.

 

Portas abertas para o empreendedorismo

Depois da primeira impressora, vieram testes de outros modelos. No momento, até uma impressora 3D portátil já está em desenvolvimento no quarto de Lucas. Não demorou até que professores pedissem para que o engenheiro recém-formado apresentasse o produto para inspirar os estudantes. E foi em uma dessas palestras, em uma escola pública do Rio de Janeiro, que as portas se abriram para o empreendedorismo.

“Levei dois bonequinhos produzidos pela minha máquina e apresentei um slide improvisado, que havia usado para o meu trabalho de conclusão de curso. Depois que terminei a palestra, fiquei mais duas horas respondendo às perguntas dos estudantes. Então pensei: Se eu consegui mudar a realidade daqueles jovens em 20 minutos, imagina o que eu poderia transformar com um projeto educacional de tecnologia dentro da minha comunidade?”, reflete Lucas.

Assim se estruturou a ideia de criar uma identidade para sua iniciativa, chamada de Infill (que significa preenchimento em inglês). Como sua intenção inicial nunca foi ser empreendedor, Lucas tomou conhecimento sobre os programas de aceleradoras através de amigos e se inscreveu em dois processos seletivos, mesmo sem muito conhecimento.

O resultado foi ser vencedor do prêmio principal do Shell Iniciativa Jovem, onde concorreu com 55 outros empreendimentos, além de ter conquistado a categoria Prêmio Popular, o que lhe rendeu cerca de R$ 10,5 mil. Outra conquista foi o Juventude Empreendedora, uma iniciativa do Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável (CIEDS) e a Fundação Itaú Social, onde conheceu outros jovens como ele, que queriam transformar a realidade nas periferias.

“Meu primeiro contato com o empreendedorismo foi um desafio pra mim. Não conhecia ninguém, não sabia o que era pitch, capital semente. De repente um cara nerd, com uma impressora 3D e um vasinho de planta na mão fala o que sabe e passa uma mensagem. Isso me marcou muito”, conta Lucas. “Os cursos e aceleração foram fundamentais para meu crescimento profissional. Hoje sei da viabilidade de montar um projeto social”.

 

Imprimindo a mudança

Enquanto investe o capital acumulado com os prêmios na criação de mais modelos de impressoras 3D, Lucas dá aulas de robótica e tecnologia em um colégio particular. Para 2020, está em definição de um modelo de negócios com a ajuda e ONGs e outros parceiros. A ideia é inaugurar um laboratório e montar uma sala de aula para abrir turmas no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.

Para cada aluno matriculado nas escolas particulares, uma vaga será aberta na comunidade. Além disso, a Infill se responsabilizará por distribuir uma cartilha conscientizando sobre a importância do trabalho dos catadores e das cooperativas, maiores fornecedores de material para a construção das impressoras 3D de baixo custo. A venda dos produtos ajudará a reverter capital social para as turmas.

“Dentro da comunidade existem jovens com uma capacidade criativa acima da média, mas sem acesso a ferramentas para colocar essa mentalidade para fora. Estou tentando trazer recursos para que esses jovens ganhem reconhecimento e construam carreiras”, afirma Lucas. “Precisamos trazer a tecnologia para favela, para ontem!”.



 

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