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As batalhas de poesia falada se espalham por todo o Brasil como um espaço de reconhecimento, empatia e militância

15 de agosto de 2019

Uma batalha de poesia falada. A definição de dicionário de um Slam é simples assim, mas basta acompanhar uma delas para entender que a arte, liderada por jovens das periferias das capitais brasileiras, é também uma forma de reconhecimento, empatia, militância política e social, união e resistência.

O Slam foi criado em Chicago, nos Estados Unidos, na década de 80, na esteira da popularização do hip hop.  Por aqui chegou só nos anos 2000, e desde então ganha cada vez mais adeptos. Só em São Paulo há mais de 60 grupos organizados.

As batalhas normalmente acontecem em espaços públicos, ao ar livre ou em centros culturais, e seguem algumas regrinhas básicas: são quatro ou cinco rodadas, dependendo do número de competidores. Cada slammer tem 3 minutos para declamar sua poesiae, no máximo, 10 segundos de tolerância para finalizar.

Os jurados, escolhidos aleatoriamente na plateia, dão notas de 0 a 10. Dos slams regionais saem competidores para os campeonatos estaduais. Os vencedores disputam o Slam BR, que normalmente acontece no final do ano. O finalista representa o Brasil na Copa do Mundo de Slam, disputada em Paris, na França.

Na linguagem do slam

Slammaster: mestre de cerimônia que conduz a competição

Slammer: poeta competidor

Correr: nome dado ao ato de declamar a poesia para o público

Pow: grito da plateia para celebrar a nota máxima, 10.

Credo: grito da plateia para as notas de 9.5 a 9.9.

 

Militância em foco

A cantora, compositora e poetisa Cinthya Santos, conhecida como Kimani, mora no Grajaú, zona sul da capital paulista. Participa do Slam desde 2017, quando descobriu a poesia de militância como uma forma de entender suas raízes e encontrar o seu espaço no mundo.

A jovem de 26 anos é conhecida nas competições. Já ganhou algumas delas e foi finalista do Slam BR. “O slam é um processo terapêutico, quase de cura mesmo. Os poetas são muito verdadeiros em relação às suas vivências. Tem gente falando sobre como foi violentada, sobre ter enfrentado a depressão, sobre opressões diárias. A gente cria um vínculo forte entre todos que estão ali”.

 

Kimani explica que os slams brasileiros costumam ser mais politizados, enquanto os norte-americanos “falam sobre passarinhos”. “São três minutos para passar a mensagem, ninguém quer desperdiçar sem se posicionar. Por isso o Slam se assemelha muito com o rap e com o hip hop. Nós bebemos da mesma fonte”.

Cinthya Santos, conhecida como Kimani, está no palco durante um evento de slam. Ela está apontando com o dedo indicador para a pele do seu braço direito, tem os cabelos longos e trançados e está de vestido preto e tênis.

 

Rotina e ancestralidade

O cotidiano – e suas discrepâncias sociais – é fonte riquíssima para os poetas da periferia. O bar da esquina, a feira, o trajeto no metrô, o aperto do ônibus lotado, as situações vividas no trabalho.

Mas há também espaço para falar de amor, de festas e até de pagode, como fez a escritora e poetisa Aline Anaya, durante o Pocket Slam que aconteceu dia 27/07, na Casa de Cultura Municipal do Ipiranga – Chico Science:

Para Aline, o slam desperta uma conexão com sua ancestralidade. “Eu tenho um forte vínculo com a oralidade. Eu não tenho registros fotográficos da minha família. Tudo o que sei sobre meus bisavós, por exemplo, é o que meu pai me conta. Então essa oralidade para mim é ancestralidade”.

A hora e a vez da quebrada

Léo Rios está sentado com as pernas cruzadas no palco de um evento de slam, enquanto fala ao microfone. Ele tem os cabelos curtos, usa regata e ao fundo é possível ver outros competidores.


Léo Rios tem 21 anos e é de Tatuí, interior de São Paulo. Até mudar para São Paulo, era um dos organizadores do slam que acontecia em sua cidade natal e do Slam Boituva.

No vídeo abaixo ele define a potência do slam como um espaço de pertencimento e escuta:

Apesar de reconhecer a importância dos slams que acontecem no centro de São Paulo, pela acessibilidade, ele costuma participar das batalhas que acontecem nas periferias da cidade, especialmente pela rede de apoio que se cria com o movimento.

“É uma cena recente, mas ela tem muita força. São pequenos grupos que vão se aliando para se fortalecer, é a força da periferia. Então os poetas criam vínculos com quem tem uma marca criada na periferia, com quem escreve zine, com o pessoal do audiovisual que está começando. É como uma escada, todo mundo vai subindo junto”.

“Tem muita gente que pensa que porque viemos da favela nos contentamos com pouco. Nós estamos nos profissionalizando e criamos uma rede para ajudar nesse processo. Se antes nós mal conseguíamos ler, hoje a gente escreve, produz e cobra por isso”, descreve Kimani sobre a arte feita “na quebrada”.

Uma questão de empatia

Quem vê o Gustavo soltar sua poesia pela arena do Slam não imagina que faz apenas sete meses que começou a participar de batalhas. E foi longo o caminho até esse momento. Ele conta que apesar de compor poesias desde os 7 anos de idade, sempre lutou contra o preconceito.

“Várias vezes me disseram que poesia não era coisa de menino. Acho que hoje em dia as pessoas entendem mais a literatura marginal. Ainda há outras tantas barreiras sociais que precisamos superar, mas a arte nos ajuda nisso”, diz ele.

Aos 30 anos, o poeta encontrou no slam acolhimento e empatia. “No slam rola muito de você sentir exatamente aquilo que outro poeta está descrevendo. É uma sensação de pertencimento que é difícil de explicar com palavras. Tem muita verdade ali, as pessoas dão tudo de si quando estão com o microfone na mão. Eu mesmo fico mais leve depois que saio do placo, como se tivesse tirado três botijões de gás das minhas costas”.

Gustavo Arranjos está com o microfone na boca, usa óculos escuros, camisa estampada e botas, enquanto declama versos durante um evento de slam.

O público costuma ser parte importante da empatia que envolve o slam. É comum dar força aos poetas que se mostram mais nervosos na arena, sem contar toda a vibração com a revelação das notas, como mostra o vídeo abaixo gravado no Slam Capão, que ocorreu também no dia 27/07, na Fábrica de Cultura do Capão Redondo.

Júnior dos Santos, de 32 anos, é de São Sebastião. Topou por acaso com o slam, parou para ouvir e se encantou. “Os artistas trazem muita verdade. A gente consegue perceber a personalidade de cada um quando eles falam. Tem uma autenticidade na experiência. É algo muito sensível que faz a gente se reconhecer e vibrar junto”.

**Todos os poemas são de livre expressão e responsabilidade dos artistas e não refletem a voz da Fundação Telefônica Vivo.

Acompanhe!

Há slams espalhados por todo o Brasil, mas São Paulo ainda ostenta o título de capital nacional do Slam. O site do Sesc SP levantou oito batalhas que acontecem pela cidade.