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8 de março de 2019

Novo conceito derivado do funk está sendo disseminado por intelectuais das comunidades do Rio de Janeiro

Você sabe o que é ‘mec’? Já teve uma ‘chuva de mec’? Ou talvez viva a filosofia da Mecnologia? É, essas respostas podem ser difíceis para quem não está por dentro das gírias do funk carioca. Criada em 2016 pelo Mc TH, mec é o mesmo que estar “tranquilão, numa boa ouvindo o batidão”. São os famosos “suave na nave”, “de boa na lagoa” e “nice on the ice”. No bom e velho português, é o estado de quem está sereno, sem preocupações.

Já Mecnologia é um conceito recém-saído do forno, que une a gíria carioca à palavra tecnologia para descrever a capacidade que moradores das periferias do Rio de Janeiro desenvolvem para permanecerem tranquilos em meio à violência e à escassez de direitos e serviços básicos, como saneamento, educação e moradia.

Quem primeiro trouxe o neologismo foi o artista plástico e cineasta Raphael Cruz, morador do Complexo da Maré (RJ). O conceito fez tanto sentido que foi logo assimilado pelos intelectuais e pensadores da periferia, chamando a atenção para esse modo de vida que envolve criatividade, esperteza e inovação.

Alguns dos exemplos práticos da Mecnologia são o mototáxi que diminui as dificuldades de locomoção nas comunidades, os puxadinhos que resolvem os problemas de moradia, o banho na caixa d’água para aliviar o calor, o ‘dividir para multiplicar’, a ‘água no feijão’ e outras tantas gambiarras que ajudam a periferia a criar sua própria forma de ser e estar na cidade, como descreveram em um artigo sobre Mecnologia as jornalistas Marcela Lisboa, de 27 anos, e Thamyra Thâmara, de 30 anos. 

Da margem para o mundo

Thamyra Tamara, fundadora da GatoMídia que registrou a reação de jovens a vídeos 360° no melhor estilo Mecnologia, está sorrindo para foto, com os cabelos encaracolados presos e com o Complexo do Alemão ao fundo.Thamyra, que é da periferia de Brasília, mas está há seis anos morando no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, é fundadora do GatoMÍDIA, um espaço de aprendizado em mídia e tecnologia criado na comunidade carioca, em 2013, e voltado para jovens negros e moradores da periferia.

“Aqui a gente pensa muito na tecnologia a partir do que a favela produz, a partir das ferramentas de gambiarra usadas para resolver problemas do dia a dia, para contornar a ausência do estado e driblar o ambiente de escassez”, define.

As criações feitas por quem participa dos laboratórios do GatoMÍDIA ampliam a voz da periferia e ajudam a difundir um novo olhar para problemas sociais enfrentados diariamente pelos moradores das comunidades, como os jogos Meritocracia e Transfobia.

Também consolidam o acesso às novas tecnologias, como aconteceu recentemente com moradores do Complexo do Alemão que, pela primeira vez, vivenciaram a experiência de realidade imersiva, com vídeos de 360º, produzido por jovens de diversas favelas do Rio. A reação foi registrada em vídeo por Thamyra, no melhor estilo Mecnologia.

Marcela Lisboa, fundadora da agência Naya empenhada a difundir o termo mecnologia, posa com cabelos raspados e usando um colar laranja e verde ao pescoço. Marcela Lisboa, também moradora do Complexo da Penha, é fundadora da agência de publicidade Naya, voltada para as classes C e D, e está empenhada em espalhar essa nova ideia. “É importante que as pessoas saibam que os moradores da favela podem não apenas refletir, mas elaborar conceitos sobre si mesmos ou qualquer outra coisa. São conhecimentos marginais, que insurgem nas beiras da sociedade”

Ao lado de Raphael Cruz, Marcela é diretora e roteirista de um longa documental – com participação de Taisa Machado no roteiro – que reflete sobre as soluções criativas pensadas pela favela como parte dessa ciência da tranquilidade, com lançamento previsto para o meio do ano. A seguir, ela explica mais sobre Mecnologia na periferia. Confira:

Mecnologia está relacionado à abundância de otimismo? Qual o segredo para manter esse otimismo (e a criatividade), especialmente para quem vive em um contexto de muita escassez?

Marcela Lisboa: Quando a gente cresce cercado de ausências, aprende a valorizar todas as pequenas vitórias. Para algumas pessoas a graduação não é nada demais. Pra um favelado, concluir a faculdade é uma vitória coletiva. Há um valor subjetivo imaterial incluído nisso. Não sei se é abundância de otimismo ou se o sonho e a fé são as únicas coisas que podem levar além das estatísticas. Creio que vale a máxima: fé em Deus e nas crianças da favela.

Cite alguns exemplos de Mecnologia mais perceptíveis no dia a dia.

Marcela Lisboa: Toda vez que falta água no morro e um vizinho ainda tem, ele liga uma borracha à torneira mais próxima e enche o balde dos outros. A falta de creches é compensada pela vizinha que toma conta dos filhos da outra, ou do vizinho eletricista (ou não) que sobe no poste de luz quando falta e resolve tudo. Essa cultura do compartilhamento em meio à escassez é o princípio básico do que chamamos de “nós por nós”.

Thamyra está ajudando jovem a colocar em frente aos olhos dispositivo feito com materiais recicláveis para assistir a vídeos 360° por meio de um celular, um exemplo de gambiarra que ajuda a explicar o termo Mecnologia.

É preciso ter um certo perfil ou uma certa personalidade para ‘ficar mec’?

Marcela Lisboa: O que mais me fascina na cultura do funk é que ele é feito na favela, mas é pra todo mundo. A segregação não faz parte dos nossos valores.

A cultura do funk está, de alguma maneira, relacionada à ancestralidade dos povos africanos?
Marcela Lisboa:
Sem sombra de dúvidas. Entendo a ginga do passinho como uma nova versão do que seria a capoeira. O samba de roda é um pouco disso também. Características de um povo que dança para não surtar por conta do ódio.

O funk é uma grande tecnologia de movimentação do corpo que passa pela movimentação do chakra básico. A própria linguagem desenvolvida nas gírias como parte de um processo de adaptação a um mundo que exclui. O mesmo com o samba, o jongo ou qualquer outra criação nossa. Eu chamo de herança ancestral. Nossa parceira Morena Mariah escreveu um pouco sobre isso em seu canal no Medium.

As tecnologias digitais ampliam o alcance da voz da periferia e garantem certa emancipação em diversos aspectos, da representatividade à produção de conhecimento.  Quais são os benefícios disso?

Marcela Lisboa: Nem podem ser mensurados. O geógrafo Milton Santos fez sua aposta sobre um outro futuro possível. Nós acreditamos que esse outro futuro passa pelo reconhecimento de que nós, afro ameríndios, somos parte integrante da geração que produz conhecimento e apresenta soluções para as crises.

É conseguir falar de si em primeira pessoa depois de anos e anos de exclusão e marginalização. Se a geração dos meus pais e avós sofreram por invisibilidade, eu sou fala e bites. Não há mais intermediação para comunicar minha realidade. Estamos nos apropriando dos meios de comunicação de massa. Agora precisamos construir estruturas e reconstruir o sentido de brasilidade tendo a globalização como uma aliada.

O seu filme é um exemplo disso, né? Pode falar um pouco mais sobre ele?

Marcela Lisboa: Mecnologia é um projeto multiplataforma que tem o baile funk como ponto culminante de tudo: empregabilidade, economia criativa, perspectiva do sonho, low e high tech e o circuito migratório da favela. Vamos comparar o baile com outros grandes eventos da cidade, tudo numa linguagem e estética afrofuturista.

O projeto será acompanhado de uma revista com distribuição em escolas públicas com pesquisas e reportagens que embasam o documentário. Nada de academiquês. Temos uma parte da gravação iniciada, mas ela será em junho e julho, porque ainda estamos buscando financiamento. Faremos exibições nas favelas onde gravamos e em escolas públicas, mas também quero lançar em festivais internacionais.

Como disseminar a ideia de que a favela é lugar das soluções, não de problemas? Marcela Lisboa: É um exercício básico: quando a gente fala de favela, o que vem na mente? Tráfico, morte, sujeira, violência, medo. Nem carro por aplicativo a gente consegue pegar. O cinema nacional não ajudou muito, já que os grandes clássicos internacionalmente conhecidos são a reprodução de um olhar de fora para dentro. Eu estou bem cansada da narrativa da vitimização e do coitadismo.

Sou uma profissional. Minha trajetória é diferente, mais resiliente e com muitas outras dificuldades, mas escolhi não contar a história triste. Quero contar o que a gente pensa de solução, de criação. Pra mim, isso é sobre mostrar pra minha mãe e pros meus sobrinhos que eles não precisam ter vergonha de quem são. É promoção de autoestima, para além da estética. É promoção de dignidade humana e cidadã para que outras Marcelas consigam sonhar com um outro futuro possível.



 

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