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Jovem está em pé e olhando para o horizonte, usando dispositivo feito com materiais recicláveis para assistir a vídeos 360° por meio de um celular, um exemplo de gambiarra que ajuda a explicar o termo Mecnologia.

Você sabe o que é ‘mec’? Já teve uma ‘chuva de mec’? Ou talvez viva a filosofia da Mecnologia? É, essas respostas podem ser difíceis para quem não está por dentro das gírias do funk carioca. Criada em 2016 pelo Mc TH, mec é o mesmo que estar “tranquilão, numa boa ouvindo o batidão”. São os famosos “suave na nave”, “de boa na lagoa” e “nice on the ice”. No bom e velho português, é o estado de quem está sereno, sem preocupações.

Já Mecnologia é um conceito recém-saído do forno, que une a gíria carioca à palavra tecnologia para descrever a capacidade que moradores das periferias do Rio de Janeiro desenvolvem para permanecerem tranquilos em meio à violência e à escassez de direitos e serviços básicos, como saneamento, educação e moradia.

Quem primeiro trouxe o neologismo foi o artista plástico e cineasta Raphael Cruz, morador do Complexo da Maré (RJ). O conceito fez tanto sentido que foi logo assimilado pelos intelectuais e pensadores da periferia, chamando a atenção para esse modo de vida que envolve criatividade, esperteza e inovação.

Alguns dos exemplos práticos da Mecnologia são o mototáxi que diminui as dificuldades de locomoção nas comunidades, os puxadinhos que resolvem os problemas de moradia, o banho na caixa d’água para aliviar o calor, o ‘dividir para multiplicar’, a ‘água no feijão’ e outras tantas gambiarras que ajudam a periferia a criar sua própria forma de ser e estar na cidade, como descreveram em um artigo sobre Mecnologia as jornalistas Marcela Lisboa, de 27 anos, e Thamyra Thâmara, de 30 anos. 

Da margem para o mundo

Thamyra Tamara, fundadora da GatoMídia que registrou a reação de jovens a vídeos 360° no melhor estilo Mecnologia, está sorrindo para foto, com os cabelos encaracolados presos e com o Complexo do Alemão ao fundo.Thamyra, que é da periferia de Brasília, mas está há seis anos morando no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, é fundadora do GatoMÍDIA, um espaço de aprendizado em mídia e tecnologia criado na comunidade carioca, em 2013, e voltado para jovens negros e moradores da periferia.

“Aqui a gente pensa muito na tecnologia a partir do que a favela produz, a partir das ferramentas de gambiarra usadas para resolver problemas do dia a dia, para contornar a ausência do estado e driblar o ambiente de escassez”, define.

As criações feitas por quem participa dos laboratórios do GatoMÍDIA ampliam a voz da periferia e ajudam a difundir um novo olhar para problemas sociais enfrentados diariamente pelos moradores das comunidades, como os jogos Meritocracia e Transfobia.

Também consolidam o acesso às novas tecnologias, como aconteceu recentemente com moradores do Complexo do Alemão que, pela primeira vez, vivenciaram a experiência de realidade imersiva, com vídeos de 360º, produzido por jovens de diversas favelas do Rio. A reação foi registrada em vídeo por Thamyra, no melhor estilo Mecnologia.

Marcela Lisboa, fundadora da agência Naya empenhada a difundir o termo mecnologia, posa com cabelos raspados e usando um colar laranja e verde ao pescoço. Marcela Lisboa, também moradora do Complexo da Penha, é fundadora da agência de publicidade Naya, voltada para as classes C e D, e está empenhada em espalhar essa nova ideia. “É importante que as pessoas saibam que os moradores da favela podem não apenas refletir, mas elaborar conceitos sobre si mesmos ou qualquer outra coisa. São conhecimentos marginais, que insurgem nas beiras da sociedade”

Ao lado de Raphael Cruz, Marcela é diretora e roteirista de um longa documental – com participação de Taisa Machado no roteiro – que reflete sobre as soluções criativas pensadas pela favela como parte dessa ciência da tranquilidade, com lançamento previsto para o meio do ano. A seguir, ela explica mais sobre Mecnologia na periferia. Confira:

Mecnologia está relacionado à abundância de otimismo? Qual o segredo para manter esse otimismo (e a criatividade), especialmente para quem vive em um contexto de muita escassez?

Marcela Lisboa: Quando a gente cresce cercado de ausências, aprende a valorizar todas as pequenas vitórias. Para algumas pessoas a graduação não é nada demais. Pra um favelado, concluir a faculdade é uma vitória coletiva. Há um valor subjetivo imaterial incluído nisso. Não sei se é abundância de otimismo ou se o sonho e a fé são as únicas coisas que podem levar além das estatísticas. Creio que vale a máxima: fé em Deus e nas crianças da favela.

Cite alguns exemplos de Mecnologia mais perceptíveis no dia a dia.

Marcela Lisboa: Toda vez que falta água no morro e um vizinho ainda tem, ele liga uma borracha à torneira mais próxima e enche o balde dos outros. A falta de creches é compensada pela vizinha que toma conta dos filhos da outra, ou do vizinho eletricista (ou não) que sobe no poste de luz quando falta e resolve tudo. Essa cultura do compartilhamento em meio à escassez é o princípio básico do que chamamos de “nós por nós”.

Thamyra está ajudando jovem a colocar em frente aos olhos dispositivo feito com materiais recicláveis para assistir a vídeos 360° por meio de um celular, um exemplo de gambiarra que ajuda a explicar o termo Mecnologia.

É preciso ter um certo perfil ou uma certa personalidade para ‘ficar mec’?

Marcela Lisboa: O que mais me fascina na cultura do funk é que ele é feito na favela, mas é pra todo mundo. A segregação não faz parte dos nossos valores.

A cultura do funk está, de alguma maneira, relacionada à ancestralidade dos povos africanos?
Marcela Lisboa:
Sem sombra de dúvidas. Entendo a ginga do passinho como uma nova versão do que seria a capoeira. O samba de roda é um pouco disso também. Características de um povo que dança para não surtar por conta do ódio.

O funk é uma grande tecnologia de movimentação do corpo que passa pela movimentação do chakra básico. A própria linguagem desenvolvida nas gírias como parte de um processo de adaptação a um mundo que exclui. O mesmo com o samba, o jongo ou qualquer outra criação nossa. Eu chamo de herança ancestral. Nossa parceira Morena Mariah escreveu um pouco sobre isso em seu canal no Medium.

As tecnologias digitais ampliam o alcance da voz da periferia e garantem certa emancipação em diversos aspectos, da representatividade à produção de conhecimento.  Quais são os benefícios disso?

Marcela Lisboa: Nem podem ser mensurados. O geógrafo Milton Santos fez sua aposta sobre um outro futuro possível. Nós acreditamos que esse outro futuro passa pelo reconhecimento de que nós, afro ameríndios, somos parte integrante da geração que produz conhecimento e apresenta soluções para as crises.

É conseguir falar de si em primeira pessoa depois de anos e anos de exclusão e marginalização. Se a geração dos meus pais e avós sofreram por invisibilidade, eu sou fala e bites. Não há mais intermediação para comunicar minha realidade. Estamos nos apropriando dos meios de comunicação de massa. Agora precisamos construir estruturas e reconstruir o sentido de brasilidade tendo a globalização como uma aliada.

O seu filme é um exemplo disso, né? Pode falar um pouco mais sobre ele?

Marcela Lisboa: Mecnologia é um projeto multiplataforma que tem o baile funk como ponto culminante de tudo: empregabilidade, economia criativa, perspectiva do sonho, low e high tech e o circuito migratório da favela. Vamos comparar o baile com outros grandes eventos da cidade, tudo numa linguagem e estética afrofuturista.

O projeto será acompanhado de uma revista com distribuição em escolas públicas com pesquisas e reportagens que embasam o documentário. Nada de academiquês. Temos uma parte da gravação iniciada, mas ela será em junho e julho, porque ainda estamos buscando financiamento. Faremos exibições nas favelas onde gravamos e em escolas públicas, mas também quero lançar em festivais internacionais.

Como disseminar a ideia de que a favela é lugar das soluções, não de problemas? Marcela Lisboa: É um exercício básico: quando a gente fala de favela, o que vem na mente? Tráfico, morte, sujeira, violência, medo. Nem carro por aplicativo a gente consegue pegar. O cinema nacional não ajudou muito, já que os grandes clássicos internacionalmente conhecidos são a reprodução de um olhar de fora para dentro. Eu estou bem cansada da narrativa da vitimização e do coitadismo.

Sou uma profissional. Minha trajetória é diferente, mais resiliente e com muitas outras dificuldades, mas escolhi não contar a história triste. Quero contar o que a gente pensa de solução, de criação. Pra mim, isso é sobre mostrar pra minha mãe e pros meus sobrinhos que eles não precisam ter vergonha de quem são. É promoção de autoestima, para além da estética. É promoção de dignidade humana e cidadã para que outras Marcelas consigam sonhar com um outro futuro possível.

março 8th, 2019

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Empreendedora usa gestão financeira para empoderar mulheres na periferia do RJ

Todos os dias, ideias inovadoras são propagadas por mulheres inspiradoras. Algumas delas escolheram o empreendedorismo para disseminar, pouco a pouco, a transformação que querem ver no mundo. É essa a missão de Ludmila Hastenreiter, 30 anos, que decidiu compartilhar, através de palestras e oficinas, conceitos de gestão financeira para microempreendedores da periferia, buscando especialmente empoderar mulheres.

“A Empoderamento Contábil surgiu da necessidade de compartilhar a importância da gestão financeira para a saúde de uma empresa”, define a empreendedora, acrescentando: “Mas também com o intuito de retribuir para os meus iguais o conhecimento e as oportunidades que tive ao longo destes 12 anos de mercado formal”.

Criada em Duque de Caxias, zona periférica do Rio de Janeiro, Ludmila acostumou-se desde cedo com a rotina de deslocamento em direção à ascensão educacional e profissional – localizada nas regiões nobres do estado. Essa distância foi ficando cada vez mais clara, não apenas fisicamente, mas sobretudo no que diz respeito aos caminhos que traçou.

Dividida entre Comunicação Social e Ciências Contábeis, a jovem, que sempre amou os números na mesma medida das palavras, escolheu fazer carreira na segunda área, pois, na época, era a única que lhe oferecia a possibilidade de conseguir um estágio remunerado.

“À medida que os anos passavam, percebi que para prosperar na carreira corporativa, eu precisaria me afastar cada vez mais dos meus valores e de quem eu sou”, relembra a empreendedora. “Infelizmente, em alguns momentos, tive de me masculinizar, fingir que não era mulher, que não era tão negra assim”.

Essa perspectiva, no entanto, também fez com que Ludmila enxergasse o empreendedorismo e os pequenos empreendedores periféricos com outros olhos. Percebeu que, com informação e treinamento de qualidade, disponibilizados numa linguagem descomplicada, por um preço acessível, o conhecimento que lutou para conquistar do outro lado da cidade, poderia ser concentrado em sua própria comunidade.

Empreender é desconstruir

Apesar de ter decidido o foco do empreendimento, o caminho a seguir a partir de então não foi tão simples. Os primeiros obstáculos foram os próprios pré-conceitos de Ludmila e do público alvo da Empoderamento Contábil.

“Eu precisei, e ainda preciso, desconstruir alguns pensamentos, principalmente o de que só um emprego com carteira assinada vai me abrir portas”, diz a empreendedora. “Essa é uma ideia bem comum na periferia. Meu público-alvo encara a própria profissão como um bico, uma renda extra até voltar ao mercado de trabalho. O que eu quero é conscientizar esse microempreendedor do potencial que tem, mostrando que a gestão financeira também é para ele”.

Em 2017, quando Ludmila oficializou o negócio, buscou nas ruas os desafios que precisaria enfrentar. Entre eles, listou a dificuldade de acesso a crédito, burocracia na formalização do micronegócio, ausência de capital de giro e incerteza sobre o sucesso do empreendimento. No caso específico da empreendedora, o apoio da família e dos amigos foi fundamental para o sucesso de seu negócio, mas ela conta que muitas pessoas com quem conversa em seus workshops não recebem o mesmo reconhecimento, o que desencoraja a visão do empreendedorismo como alternativa profissional.

Para fazer acontecer

Apesar de não ter tido nenhum tipo de capital semente ou ajuda de colaboradores diretos, a Empoderamento Contábil já abriu caminho com uma vantagem: o conhecimento da fundadora em relação à gestão estratégica e de custo. Além disso, os mais de 10 anos de carreira no mercado formal deram a Ludmila o panorama necessário para entender os processos de estruturação e planejamento de uma empresa.

Atualmente, a startup é conduzida apenas pela fundadora e conta com parcerias e colaborações com coletivos, ONGs e outros empreendedores sociais. O site, por exemplo, foi desenvolvido com a ajuda de três designers do projeto Cumbuca Marketing, que usaram as técnicas do design Sprint para mapear e terminar de definir os serviços ofertados pela consultoria. Outro passo importante na trajetória do empreendimento foi o redirecionamento de público. Ludmila optou por orientar o conteúdo de seus serviços para mulheres empreendedoras e periféricas.

Ludmila Hastenreiter, que criou a Empoderamento Contábil para empoderar mulheres, está sentada ao computador sendo gravada por câmera.

“Percebi que minha primeira opção é falar com mulheres. A importância e o impacto que a mulher tem na disseminação do conhecimento é ímpar; entre os jovens, dentro de uma família. Ainda mais quando essa mulher é empreendedora, e tem que cumprir uma série de atividades sendo uma só”, explica Ludmila.

Conquistas alcançadas e à vista

Desde 2017, foram realizados em média 10 grandes eventos. Dentre eles, a maioria palestras gratuitas e alguns workshops de baixo custo, que variaram entre R$ 20 e 60. Ainda assim, foram distribuídas algumas gratuidades, para ampliar as oportunidades de quem não poderia arcar com esse valor.

Além da consultoria presencial, Ludmila abriu um canal de treinamento online, o Vamos Juntas! O curso se dedica a ensinar mulheres a administrar o dinheiro e investi-lo para potencializar a carreira profissional. No futuro, a empreendedora pretende implementar um sistema de plataforma de ensino online, mas por enquanto opta pela maior parte dos serviços  presenciais, incluindo palestras e consultorias em empresas.

Ludmila Hastenreiter, que criou a Empoderamento Contábil para empoderar mulheres, está ao lado de dez participantes do canal de treinamento Vamos Juntas!

Para complementar os planos e somar conhecimento, Ludmila foi aprovada recentemente em um curso extensivo de Finanças Corporativas na Universidade de Ohio, nos Estados Unidos. Apesar de ter recebido bolsa integral, as despesas da viagem não são inclusas e, por isso, a empreendedora abriu um financiamento coletivo para arrecadar fundos, que funciona por meio de um sistema de recompensas: a cada contribuição feita, o doador tem a chance de criar uma oficina em um bairro periférico do Rio de Janeiro.

Dessa forma, o conhecimento somado e adquirido retorna para a periferia e os valores, uma vez negados, são exaltados como potenciais transformadores. Mulher, negra, periférica e empreendedora social, Ludmila Hastenreiter imprime no mundo um pouco da sua marca todos os dias.

Enquanto a Empoderamento Contábil alcança os primeiros resultados e define metas para o futuro, outros empreendimentos criados por mulheres e voltados para abrir caminhos na vida profissional despontam como potenciais transformadores. É o caso da RAP – Rede de Afro Profissionais, uma ferramenta que conecta mulheres negras a oportunidades no mercado de trabalho.O projeto foi desenvolvido por duas irmãs, Jéssyca (26) e Monique Silveira (31), e surgiu com a missão de promover a igualdade racial e de gênero, ao criar uma rede de conexões entre mulheres negras e as mais diversas vagas de emprego, incentivando a ocupação de cargos de liderança.

Antes de ser acelerado pelo Pense Grande Incubação, a RAP começou como um grupo no Facebook, que reunia mulheres negras e as incentivava a empregarem umas às outras. Hoje, a startup movimenta em média 15 mil mulheres conectadas.

março 8th, 2019

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Na imagem, três jovens negros conversam sentados em volta de uma mesa. O rapaz do centro está com um notebook virado para ele.

Em bate-papo, a jovem mestranda e pesquisadora, Taís Oliveira, fala sobre oportunidades e afroempreendedorismo no Brasil.

Quando via de perto o esforço de sua mãe, envolvida em diferentes atividades para complementar a renda da família, Taís Oliveira, nascida no bairro Parque Santos Dumont, periferia de Guarulhos (SP), nem imaginava, mas estava dando seus primeiros passos rumo ao que mais tarde seria seu objeto de trabalho e até o tema de sua dissertação de Mestrado: o afroempreendedorismo.

Participando de cursos e atividades em um projeto social na cidade em que vivia, Guarulhos, Taís decidiu fazer a faculdade de Comunicação Social com ênfase em Relações Públicas. O curso lhe abriu portas para se aprofundar em temas como o empreendedorismo negro.“Não só nos dias de hoje, mas em toda a história da população negra do Brasil, o maior desafio é lidar com o racismo”, garante Taís.

Aos 28 anos, ela é pesquisadora membra do NEAB (Núcleo de Estudos Africanos e Afro-brasileiros) na Universidade Federal do ABC, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais e cofundadora do blog Versátil RP.  Recentemente, Taís esteve em Portugal para participar do evento Smart Data Sprint, que reúne investigadores e estudantes de todo o mundo interessados em trabalhar com dados e métodos digitais.

O que dizem as pesquisas

O termo afroempreendedorismo é uma modalidade de negócios voltada à valorização do empreendedor negro como investidor em potencial e grande representante do mercado de negócios. De acordo com a última pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor (GEM), realizada pelo Sebrae em 2017, as pessoas negras são a maioria dos empreendedores do Brasil e movimentam mais de R$ 1 trilhão de reais por ano na economia, segundo o Instituto Locomotiva.

Driblando o desemprego, combatendo o racismo e a falta de oportunidades, o empreendedorismo se torna uma estratégia para escapar da crise e incentivar novos empresários a crescerem nesse mercado.

Na visão da especialista

Taís Oliveira teve um de seus artigos, Redes Sociais na Internet, Narrativas e a Economia Étnica: Breve estudo sobre a Feira Cultural Preta, publicado no livro Estudando Cultura e Comunicação com Mídias Sociais, que reúne textos de professores e pesquisadores que debatem métodos, identidades, política e mercado da Comunicação. A publicação está disponível para download gratuitamente neste link.

Batemos um papo com a Taís para conhecer um pouco mais de sua trajetória e saber sua visão sobre afroempreendedorismo, o uso das redes sociais como forma de comunicação, a participação das mulheres negras nesse contexto e outros temas. Confira!

Como os estudos sobre afroempreendedorismo surgiram na sua vida? 

 

 A jovem Taís Oliveira posa para foto

A pesquisadora Taís Oliveira

Taís Oliveira – Desde pequena acompanhei minha mãe, que é uma mulher negra, nordestina, empregada doméstica, em atividades paralelas que ela realizava para ganhar um dinheiro extra. Naquela época não entendíamos isso como empreendedorismo. Fui mantendo essa relação muito próxima com o tema. Trabalhei em agências de comunicação e sempre ofereci aulas para movimentos sociais e pessoas que não têm muito acesso. Nesse processo, conheci a Feminaria, uma casa para mulheres empreendedoras, onde ofereci muitos cursos de planejamento e comunicação. Me aproximei de movimentos como o Afro Business, a Feira Preta e a Black Rocks, onde sou mentora e ofereci cursos. Com isso, descobri que o afroempreendedorismo tem aspectos sociais que vão além das questões técnicas. Tem muito sobre racismo, identidade, estrutura social, questionar padrões de práticas. E consegui encaixar isso em uma teoria da sociologia do trabalho que é interessante para pensar na questão do grupo étnico.

O que te ajudou a iniciar sua trajetória?

Taís Oliveira – Consegui galgar alguns espaços porque sempre investi em blogs, mantive minhas redes sociais sempre ativas e tudo que aprendi e aprendo, tento compartilhar de alguma forma. Mantenho minhas apresentações abertas para acesso gratuito. O grande segredo é compartilhar conteúdo de qualidade e empreender em aspectos que não necessariamente estejam ligados a ganhar dinheiro. Essa troca de informações e conhecer pessoas também são elementos importantes na carreira.

Qual a essência do termo afroempreendedorismo?

Taís Oliveira – O conceito de empreendedorismo está próximo de questões administrativas, de finanças, gerenciamento em torno de negócios, etc. Isso tudo também existe quando estamos falando de afroempreendedorismo, mas as questões sociais relacionadas a ser negro no Brasil e em outros países também está em voga quando relacionamos ao tema. Por exemplo, em eventos, sempre está prevista uma discussão sobre racismo, educação, mercado de trabalho de maneira geral. Os grupos e movimentos sobre afroempreendedorismo estão conectados a movimentos sociais debatendo política, se posicionando de uma forma mais clara e objetiva. Então, o afro vai além de questões técnicas e financeiras. Não é só promover o lucro, mas também uma reflexão importante sobre pautas sociais.

Quais os maiores desafios para os empreendedores negros?

Taís Oliveira – Não só nos dias de hoje, mas em toda a história da população negra do Brasil, o maior desafio é lidar com o racismo. E é um racismo estrutural. Parte desses empreendedores estão nessa função porque não tem um emprego formal ou porque sofreram algum tipo de preconceito em empresas. Um dos desafios, já a respeito da prática em si, é a questão do financiamento. O professor Marcelo Paixão tem uma pesquisa que fala do acesso ao microcrédito. Ele mostra como a pessoa negra que busca crédito é barrada já na porta do banco. A questão de encontrar financiamento é um problema. E sem esse dinheiro inicial, é difícil empreender, em muitos casos. A questão do racismo é bem presente nesse tópico.

O afroempreendedorismo pode ser classificado como um movimento de consumo consciente?

Taís Oliveira – Sim. Inclusive, há movimentos como “Se eu não me vejo, não me compro” ou o “Só compro do pequeno”. E isso é muito aplicado dentro do afroempreendedorismo: consumir produtos e serviços de empreendedores negros. E isso tudo tem ganhado uma proporção grande. Eles mesmo fazem um esquema de comprar entre si e garantem que não vai haver mão de obra escrava, que vão ajudar uma família negra a prosperar, por exemplo.

Como a internet e as redes sociais podem contribuir com o afroempreendedorismo?

Taís Oliveira – As redes sociais possibilitaram o encontro dessas comunidades de afroempreendedores sem a necessidade de uma proximidade geográfica. Quem está em São Paulo pode trocar ideias e consumir produtos do Vale do Dendê, de Salvador, por exemplo. E até mesmo de movimentos fora do país. Isso, na verdade, segue uma tendência. As comunidades negras sempre se encontraram, especialmente as comunidades diaspóricas, um movimento de se aglomerar desde os quilombos. E chamamos esse movimento de quilombo digital, onde nos encontramos de alguma forma para promover o bem-estar da comunidade.

Na comparação salarial, os negros continuam ganhando menos e têm escolaridade inferior aos brancos. Como você analisa esse cenário?

Taís Oliveira – Isso é resultado de um período escravocrata no Brasil e de um racismo estruturado com políticas. Os negros não tiveram acesso à educação, a ferramentas de cultura, saúde. O resultado dessa disparidade é resultado ainda de um regime escravocrata. Temos menos de 200 anos de um país livre de fato. E a questão da violência é muito presente. As pessoas negras morrem mais e estudam menos. Hoje, mesmo que esse pequeno aumento do movimento afroempreendedor tenha seu pé calcado nas políticas de ação afirmativa, tanto de educação quanto de setor público, por exemplo, o poder acaba ficando ainda com quem define os salários.

E ainda segundo pesquisas, a maioria das pessoas negras que empreendem, são mulheres. A que você credita esse cenário? 

Taís Oliveira – Isso é uma resultante ao extermínio da população negra. A fonte acaba sendo a mesma que envolve o racismo. A diferença é que o homem negro morre mais. E as mulheres precisam então chefiar as suas famílias. Em consequência disso, arranjam alternativas para ganhar dinheiro extra. Também existe uma conexão de que as mulheres negras estudam mais que os homens negros.

Você acredita que a escola pode contribuir de alguma com o estimulo ao afroempreendedorismo?

Taís Oliveira – A escola pode mobilizar os alunos de forma geral sobre o tema empreendedorismo, empreendedorismo social, inovação. O afroempreendedorismo está relacionado a Lei 10.639, que estimula o ensino de estudo da África e de questões relacionadas a raça nas escolas. A escola pode ser uma importante ferramenta para isso. Mas o cenário é bem pessimista nesse sentido. Nem o básico da lei é aplicado hoje. Para chegar no patamar de ensino seria uma questão a mais de discussão hoje em dia.

Você tem alguma dica para as pessoas negras que querem empreender e enfrentam dificuldades?

Taís Oliveira – A primeira coisa a ser feita é saber onde se quer chegar e traçar um caminho para esse objetivo. Com esse desenho bem traçado, é possível visualizar em uma pequena escala a trajetória. Isso ajuda a descomplicar. E buscar capacitação técnica. Entender em quais áreas você precisa desenvolver habilidades para compor o seu negócio: administração, marketing, por exemplo. E desenvolver uma boa rede de apoio, não só entre familiares e amigos, mas com outros empreendedores negros que já estão em um nível de satisfação com o projeto.

fevereiro 6th, 2019

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Jovens que participaram do Pense Grande Incubação 2018 posam para foto em grupo

Entre os dias 21 a 24 de janeiro, cerca de trinta jovens empreendedores estiveram reunidos para a última imersão da Turma 2018 do Pense Grande Incubação. Juntos em São Paulo e depois em São Roque, eles trocaram experiências sobre a jornada empreendedora de cada um, além de participarem de mentorias personalizadas e rodas de conversas. A imersão marca o fim de um período de 10 meses de muita correria e mão na massa.

Logo no segundo dia de encontro, os jovens empreendedores tiveram a oportunidade de apresentar seus negócios a uma banca composta por representantes de investidoras e aceleradoras alinhadas com iniciativas de impacto social, como Creditas, Sitawi, Bemtevi, Facebook, Rede Anjos Brasil e Nesst.

Em três minutos, eles precisavam falar de seus empreendimentos, o que conseguiram realizar durante a jornada empreendedora e quais seus planos para o futuro. O momento que viria depois era ainda mais desafiador: ouvir o feedback da banca. O encontro ocorreu na Wayraaceleradora de startups do Grupo Telefônica – e foi registrado pela Feel Filmes, parceira executora da Fundação Telefônica Vivo, que irá produzir uma web série sobre esse momento da vida dos jovens empreendedores.

“É o terceiro ano que participo da imersão e é muito interessante ver que, a cada turma, os empreendimentos estão mais diversos e estruturados. Cada projeto é único, possui necessidades únicas e nossa função ali é impulsionar os negócios sociais e mostrar que o empreendedorismo é uma opção de vida possível”, considera Eduardo Pedote, sócio-diretor da Bemtevi e um dos participantes da banca avaliadora.

Ficou curioso para conhecer mais sobre os empreendimentos? Você pode conferir algumas iniciativas incubadas pelo Pense Grande e outros projetos inspiradores no Pense Grande.doc, documentário que vai ao ar todas as quinta-feiras, às 22h15, no canal Futura.

Marina Egg Batista, Diretora de Desenvolvimento Humano da Aliança Empreendedora, parceira executora do programa, avalia que tanto a jornada de dez meses, quanto a última imersão foram muito positivas para o futuro dos jovens e de seus empreendimentos.

“A terceira imersão marca o fim de um ciclo. É o último momento de olhar a trajetória dos negócios e dos próprios empreendedores. Eles tiveram a chance de ter um retorno muito importante de pessoas que não acompanharam os negócios desde o início e foi interessante ver que a banca acreditou nos empreendimentos, compartilhou contatos e, o mais importante, deu dicas de como potencializar as ideias daqui em diante”, conta.

Sob o olhar dos jovens

Para os idealizadores do Cinequebrada, um negócio que aposta em produções audiovisuais acessíveis para a construção de espaços de fala e visibilidade, a imersão serviu como reflexão sobre os dez meses de acompanhamento do Pense Grande.

“Vivemos uma semana de muita animação junto com outros jovens empreendedores. Foi um período super importante para o futuro do Cinequebrada porque nós recomeçamos o negócio quase do zero. O Pense Grande proporcionou maturidade para nós como empreendedores e, também, como pessoas, porque uma coisa não está separada da outra”, opina Wesley Xavier, um dos idealizadores do Cinequebrada.

Durante a imersão, uma das palavras mais mencionadas por eles e por quem acompanhou o processo de desenvolvimento dos negócios, foi amadurecimento.


“Atingimos nosso maior objetivo durante o Pense Grande: sair da fase de ideação do negócio para a de pré-operação. Éramos os empreendedores mais jovens da Turma 2018. Desenvolvemos e amadurecemos muito, tanto o negócio, quanto nós mesmos. Incentivamos que mais jovens participem do Pense Grande, porque é um programa para quem quer, realmente, fazer acontecer!”, acredita Carla Francischette, uma das idealizadoras da IntegraMais.

Momento de seguir em frente

Com o ciclo Pense Grande Incubação 2018 encerrado, começa outra etapa na vida dos jovens empreendedores que participaram do programa: o momento de juntar as avaliações, pensar no futuro dos empreendimentos, aproveitar a rede que construíram durante o processo e transformar os medos e receios em ação.

Em 2019, desafios como pensar a sustentabilidade financeira do negócio, testar os produtos ou serviços desenvolvidos e impactar suas comunidades estarão ainda mais presentes na vida dos jovens empreendedores.

Pense Grande Incubação 2019 vem aí: prepare-se! 

Se você também tem uma ideia de empreendimento social para desenvolver ou tirar do papel, inscreva-se para Pense Grande Incubação 2019. Mais informações estarão disponíveis, em breve, no site do Pense Grande. Fique de olho!

fevereiro 6th, 2019

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Grupo de oito pessoas está reunido em torno de uma mesa discutindo projeto ligado ao Visionários da Cidade, que criou metodologia empreendedora para jovens da periferia

Um psicólogo, uma designer e um administrador de empresas uniram forças para criar um projeto voltado a jovens de periferia que desejam transformar sua realidade. Como eles fazem isso? A resposta está no apoio ao desenvolvimento de negócios de impacto social.

O Visionários da Cidade foi idealizado por Daniel Caminha, Liliane Basso e Aron Litvin em Porto Alegre (RS). O trio criou uma metodologia e um conjunto de ferramentas gratuitas para auxiliar jovens a tirar suas iniciativas do papel, fazendo com que sejam agentes de transformação de suas realidades.

Para tornar o programa possível foram articuladas parcerias entre o TransLAB – Laboratório Cidadão e a Brunel University London, com fomento do Newton Fund, por meio do British Council.

Liliane Basso conta que foi a partir do contato com diferentes perfis de jovens e educadores que surgiu a proposta de criar o programa. “Dentro do TransLAB, um laboratório de inovação social, percebíamos que entre os jovens existia uma vontade muito grande de mudar situações que os incomodavam em seus bairros e nos seus contextos de vida. Por outro lado, educadores nos procuravam para saber sobre quais ferramentas poderiam auxiliar os jovens a colocar suas ideias em prática. Diante disso, unimos as duas pontas por meio de um conjunto de atividades para desenvolvimento de projetos de impacto”, explica.

No início, o desafio do Visionários da Cidade era pensar em atividades e experiências para a transformação social, que dialogassem com a linguagem dos jovens e, ao mesmo tempo, com a dos educadores.

Quando conseguiram encontrar esse ponto de contato entre os dois universos, desenvolveram algumas de suas missões: a criação de estratégias para o enfrentamento da realidade, auxiliar os jovens na compreensão de seu contexto social de atuação e na identificação de oportunidades em seus territórios.

Conectando orientadores e transformadores

Da ideia inicial até a estruturação do negócio, todo o processo é acompanhado de perto por um facilitador ou educador voluntário, que pode ser um professor, um agente social ou uma liderança da comunidade. Sua função é, além de orientar na estruturação do projeto, ajudar os jovens a desenvolverem postura crítica e de resiliência diante dos desafios que vão surgir pelo caminho.

A atuação se assemelha a de um mentor: ao lado da turma de trabalho, a pessoa irá ajudar no desenvolvimento de cronogramas para colocar o projeto em prática, reconhecer a expectativa do grupo e, claro, aplicar a metodologia de acordo com a necessidade da turma.

É possível que o desejo de mudar a realidade surja também do próprio facilitador, que pode desenvolver um projeto e inspirar uma turma a embarcar nessa jornada com ele. Quando o grupo estiver formado, todos devem estar engajados e ter um objetivo acima de todos: causar impacto positivo na sociedade.

A atitude empreendedora para a transformação social

São três os pilares que devem nortear o caminho para o desenvolvimento dos negócios de impacto, de acordo com a metodologia Visionários da Cidade: viabilidade econômica da iniciativa, pensamento sistêmico (levar em consideração as diferentes relações que o projeto pode estabelecer) e atitude ativista (a consciência de que fazer o bem é seu papel no mundo).

Com essa perspectiva em mente, o próximo passo é seguir a metodologia, que está disponível de forma gratuita por meio da plataforma digital e do aplicativo do projeto.

Quem já encontrou soluções criativas para suas inquietações com a ajuda do Visionários da Cidade foram as idealizadoras da Mosh, um ateliê de publicidade musical destinado a artistas independentes. Ao perceberem que os músicos de Porto Alegre não tinham recursos para a criação de peças para divulgação de seus trabalhos, elas passaram a realizar a atividade de forma mais colaborativa e acessível para os artistas independentes.Os youtubers à frente do Expoente Zero também passaram pela metodologia e colocaram em prática um canal que mostra eventos culturais nas favelas da capital do Rio Grande do Sul. Jovens da periferia são capacitados para falarem sobre a realidade de onde vivem e serem protagonistas de suas histórias.

O futuro dos Visionários

Jovens sentados em cadeira formam plateia em palestra de projeto ligado ao Visionários da Cidade, que criou metodologia empreendedora para jovens da periferia

Em pouco mais de um ano de existência, mais de 50 jovens já desenvolveram seus projetos com a metodologia do programa. Os idealizadores também têm atuado em escolas de Porto Alegre, realizando a formação dos educadores para estimular seus alunos a pensar no empreendedorismo social como uma possibilidade de resolução de problemas em seus contextos de vida.

Em dezembro de 2018, Liliane Basso, que também é professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing no Rio Grande do Sul, conquistou o terceiro lugar do Prêmio Brasil Design Award, com o Visionários da Cidade, na categoria “Projetos de Impacto Positivo”.

Para os próximos anos, a ideia é que o projeto ganhe o Brasil e a América Latina. “Queremos trabalhar com instituições de ensino e de fomento ao desenvolvimento de projetos de impacto social. Ao mesmo tempo, estamos em busca de parceiros para acelerar as melhores iniciativas, além de criar um banco de investimento para esses projetos”, revela Lilian.

dezembro 26th, 2018

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Na imagem, equipe de colaboradores, formada por cerca de 20 integrantes, se reúne em volta de um totem do Pense Grande durante o Demoday

O grupo com três integrantes subiu ao palco e começou a espalhar plástico, papel e papelão por todos os lados, despejando uma grande quantidade de material reciclável em frente à banca dos jurados. Foi assim que começou a impactante apresentação do EcoCrie, um dos grupos vencedores do Demoday da 5ª edição do Pense Grande.

Pela primeira vez, Fatecs participaram do evento, que marca o encerramento do programa de disseminação da cultura empreendedora. E os vencedores foram escolhidos em um longo processo.

Em 2018, 2.000 jovens foram formados dentro da metodologia do Pense Grande. Os 10 melhores empreendimentos (5 de ETECs e 5 de Fatecs) foram selecionados entre 130 projetos para fazer um pitch de cinco minutos a uma banca de especialistas na disputa pelo 1º lugar no Demoday.

Julio Rubio, Milleny Saud e Beatriz Adas, do EcoCrie, contam que a ideia para o pitch de impacto nasceu do conselho da MC Karol, uma das apresentadoras do Demoday, sobre “chegar com o pé na porta”. “Todo o conhecimento que trouxemos até aqui valeu a pena! A gente não aprendeu só a empreender, mas a pensar grande”, relatou emocionado Julio Rubio.

O projeto vencedor, da ETEC Albert Einstein, é um aplicativo para ensinar a criar brinquedos com materiais recicláveis e mudar a realidade, já que três bilhões de pessoas não reciclam lixo no mundo. O EcoCrie também propõe que os pais passem tempo de qualidade com os filhos, disponibilizando vídeos e oficinas para conscientizar a todos.

Dispositivo inovador

O grupo vencedor pelas Fatecs foi o TRV, que desenvolveu um dispositivo a base de borracha que prende líquidos e gases e permite a manutenção em válvulas e tubulações. Os integrantes partiram da própria vivência trabalhando em fábricas e em concessionárias de gás para criar um protótipo. Durante o pitch, eles contaram que fizeram um teste real do produto e reduziram para 20 minutos um trabalho que levaria quatro horas. 

“O Pense Grande ajudou bastante, porque a gente só tinha a ideia. Estávamos pensando em patentear nossa criação e eles nos mostraram coisas que nem imaginávamos fazer. Agora ganhar o primeiro lugar foi gratificante!”, relata Walter Luiz, integrante do grupo que estuda na Fatec Itaquera.

Todos os projetos participantes exploram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas com soluções para problemas sociais, econômicos e ambientais que sejam norteados por valores como inclusão, busca pela igualdade e combate a todos os tipos de discriminação.

No segundo lugar pelas ETECs houve empate entre os grupos Fast Fruit, Etec Praia Grande, e BuskeBônus, Etec Dr. Geraldo José Rodrigues Alckmin. Os dois grupos propuseram a criação de aplicativos. O primeiro, um serviço de delivery para consumo de alimentos naturais e combate à fome. Já o segundo, seria um programa para acumular pontos com a locomoção por ônibus e bicicleta e trocar por produtos e serviços.

O projeto Qualifica, da Fatec São Paulo, ficou no segundo lugar pelas Fatecs com a proposta de criação de uma plataforma que reúne indicação de serviços para construção civil, incentivando o uso de mão de obra local e promovendo cursos de capacitação por meios digitais.

Os vencedores serão premiados com ingressos da Campus Party e terão a oportunidade de se tornar um membro da Associação Brasileira de Startup. Os grupos em segundo lugar receberão mentoria de um investidor anjo e vale livros.

Alimentando sonhos empreendedores

O Demoday, realizado no auditório da Fatec São Paulo, também contou com a presença de Eduardo Navarro, presidente da Telefônica Brasil, que valorizou a trajetória de crescimento da empresa, há 20 anos atuando no país.

“Pensar grande sempre foi o nosso lema. A conectividade, a banda larga, a internet vão fazer a transformação deste país. Se juntarmos o talento, que está sendo formado aqui nas Etecs e nas Fatecs, com a tecnologia, que está sendo transferida para vocês, vamos fazer uma enorme transformação”, discursou o presidente da Telefônica Brasil.

Americo Mattar, diretor presidente da Fundação Telefônica Vivo, ressaltou a alegria de ver os jovens abraçando a oportunidade de levar adiante iniciativas inovadoras. No discurso de abertura do evento, ele lembrou que o caminho do Pense Grande cruzou com o das ETECs há três anos e também enfatizou a importância de manter os sonhos vivos.

“O Pense Grande mostra aos jovens que não há complexidade no processo de aprender a empreender. Vê-los colocando projetos em prática, é o maior fator de sucesso e realização. O objetivo é permitir que vocês estruturem seus sonhos para fazê-los realidade. Então sonhe grande, porque pensar pequeno não vai nos levar muito além!”
, afirmou Americo Mattar.

O professor Monteiro resumiu a importância do Pense Grande para a formação dos estudantes. “Fecha com chave de ouro o percurso de 60 horas. Não só o projeto em si, mas a aprendizagem que esse aluno teve durante o processo. O que vale é o percurso”, enfatiza o  coordenador de projetos do Centro Paula Souza, instituição parceira ao lado da Impact Hub na execução do programa da Fundação Telefônica Vivo.

Roda de conversa no Demoday

A apresentação dos projetos finais também contou com muitos momentos de inspiração para quem está dando os primeiros passos no empreendedorismo social.

Foi exibido o episódio sobre o PLT4Way, que faz parte da série Pense Grande.Doc, exibida todas as quintas-feiras pelo Canal Futura e com episódios disponíveis na íntegra no Youtube da Fundação Telefônica Vivo. O projeto leva o ensino de inglês a comunidades de baixa renda com intuito de transformar vidas com qualificação profissional.

Após a exibição, o cocriador do PLT4Way, Diego Ramos, participou de uma roda de conversa ao lado da atriz, cantora e apresentadora Lellêzinha; da embaixadora da rede Pense Grande, Deborah de Angelo; e com a mediadora Fernanda Cabral, do Coletivo Imagina.

Deborah de Angelo contou que jamais pensou em ser referência. “Sempre imaginava o empreendedor como um engravatado e quando quis ir para a área de tecnologia, não via mulheres ali. No começo, senti um peso. Mas se tornou algo bom, posso passar experiência como algo positivo e fazer as pessoas evitarem perrengues”, relata a jovem, que também fala sobre empreendedorismo no Pense Grande Podcast.

Diego Ramos compartilhou que assiste a vídeos do boxeador Muhammad Ali para se inspirar antes de partir para a luta diária. “Temos de acreditar naquilo que estamos fazendo. Temos de estar em lugares que aumentem nosso conhecimento e reter informação para manter a chama acesa”.

Lellêzinha falou aos jovens no Demoday do Pense Grande sobre a importância da representatividade e da persistência.


“Quis seguir meus sonhos e estamos falando de sonhos aqui hoje! É ter fé que vai chegar naquele lugar e trabalhar muito! Nossa família pode não ser a favor, porque quando somos pobres não temos tempo para sonhos. Mas no Brasil devemos ser teimosos! Estou aqui e não cheguei sozinha, sempre temos apoio pelo caminho”
, encoraja Lellêzinha.

Infográfico mostra tabela com vencedores do Demoday da 5ª edição do Pense Grande, entre eles os projetos EcoCrie e TRV.

novembro 26th, 2018

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Imagem mostra o empreendedor Celso Athayde. Ele veste camisa branca e paletó preto

“Nunca pensei em transformação social”, afirma Celso Athayde, nomeado pela ISTO É Dinheiro como o empreendedor social do ano em 2017. Ele é fundador da CUFA (Central Única das Favelas) e da Favela Holding, um conglomerado de 22 empresas que geram empregos e movimentam a economia de comunidades no Rio de Janeiro.

A trajetória do empresário carioca é considerada referência como superação dos obstáculos e inspiração para o desenvolvimento de ferramentas de transformação social. “Um trabalho na favela, seja ele qual for, é social por excelência, não precisa ter um discurso”, afirma Athayde que, aos 55 anos, relembra o período em que teve de deixar seu barraco na Baixada Fluminense aos seis anos de idade e foi morar na rua. “Nós somos a representação física, estética e moral da transformação social”, afirma.

Para o empresário, sobreviver era a prioridade. Nos abrigos públicos e nas favelas pelas quais passou aprendeu com as disputas da rua, muitas vezes recorrendo a furtos, drogas e trabalhos informais para sobreviver por mais um dia. As experiências acumuladas nesse período transformaram a visão de Celso Athayde para a realidade das favelas e das pessoas que moram nesses territórios.

Por outro lado, ele entrou em contato também com a potência desses espaços, como as inúmeras manifestações artísticas das juventudes negras que expressam o contexto em que vivem através da música, da dança e da rima. O ponto de virada foi justamente o contato com o movimento Rap, que acendeu a fagulha revolucionária que levaria Athayde a refletir sobre a vida dos jovens na favela.

Ciclo de potência 

A partir desse primeiro contato, há 20 anos, Celso passou a empresariar cantores influentes como MV Bill e Nega Gizza. Mas isso não bastava. Criar uma “indústria de protesto”, como o próprio empresário define, não era seu objetivo principal, mas acabou se concretizando em meio à busca de soluções reais para ampliar uma rede de espaços para os jovens se expressarem, desenvolverem atividades de lazer, educativas e culturais.

Com a ajuda de amigos e parceiros como o próprio MV Bill, nasceu a organização social Central Única das Favelas, conhecida como CUFA, visando valorizar a vida das pessoas. Tal iniciativa conquistou prêmios nacionais e internacionais, foi reconhecida pela ONU (Organização das Nações Unidas) e ampliada para outras comunidades ao redor do mundo.

Em consequência dessa articulação, outras ações foram estruturadas posteriormente, pois é necessário investimento constante para reais soluções nas favelas. Em 2013, é fundado o conglomerado Favela Holding, que reúne 22 empresas de negócios sociais que protagonizam a atuação dos moradores, garantindo um envolvimento na economia e geração de renda na região.

Uma dessas iniciativas foi a Favela Vai Voando, uma empresa de viagens voltada para o turismo de moradores das favelas e regiões periféricas brasileiras. No mercado, a FVV foi o primeiro empreendimento a oferecer transporte aéreo e os benefícios para as classes C, D e E.


Não sei se existiu um ponto de virada na minha trajetória. No fundo, o grande momento está para surgir ainda”, acredita Celso Athayde.

Empreender é “se virar”

“Favela não é carência, favela é potência”, reafirma Celso Athayde quando conta a história sobre os empreendimentos que viu se desenvolverem. Buscar o envolvimento desses moradores na construção das ideias é objetivo fundamental para ele, bem como entender as constantes renovações de necessidades pelas quais  passam todos os dias.

Segundo o Data Favela, um instituto criado para investir em pesquisas estratégicas de comportamento e mercado de baixa renda, 28% dos moradores de favelas têm intenção de abrir seu próprio negócio e 59% deles desejam criá-los dentro das próprias comunidades.

“O empreendedorismo da base da pirâmide não é necessariamente uma vocação, mas é uma necessidade de sobrevivência permanente. Aqui a gente não chama isso de empreender, chama isso de se virar”, acrescenta o empresário, mas diz discordar da ideia de que somente o empreendedorismo gera felicidade. Para Athayde, cada perfil de pessoa colabora à sua maneira para o que entendemos como transformação social.

novembro 16th, 2018

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